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20 de julho de 1999 - (SxM) - Saida de Ipoema

© Bruno Guilarducci Itabira - Distrito de Ipoema - Ipoema - Distrito de Itabira - Bruno Guilarducci Ipoema - Distrito de Itabira

Pela manhã, numa visita ao Supermercado Novo Ana, fui presenteado, por seu proprietário, Sr. Jesus Tomé, com uma tela pintada a óleo. Guardo com carinho a lembrança.


14:30 horas. Saímos de Ipoema. Nossa escolta contava com mais cavaleiros, dos Clubes do Cavalo de Ipoema e de Turvo. O Prefeito e o vereador Zé do Cachimbo seguiram conosco. Um cavaleiro mirim me chamou a atenção. Seu nome? Ivã Monteiro Lage. Sua idade? “6 anos”, ele me informou. Mais um jovem agregado à nossa tropa. A nova geração de cavaleiros do futuro. Filho do Êdo Linhares Lage, que retificou a informação dada pelo filho sobre a idade com uma história engraçada. É que anteciparam a festa de aniversário de 5 anos, que foi comemorada no dia 3 de julho. Quando chegou a data real, dia 18 de julho, ele decidiu mudar de idade novamente. Passou de 4 para 6 anos, em um só mês! Isso que é sede de viver!


Chegando à Senhora do Carmo, fui ao posto telefônico (em muitos pontos do caminho, o telefone celular não funciona). A demanda de usuários é grande, 4.500 habitantes para um único aparelho na cidade. Esse é um problema que precisa ser resolvido, para o bem da comunidade e do turismo nessa rota. Mas, enquanto esperava para poder telefonar, fui conhecendo as pessoas na fila de espera. Tive notícias de um “benzedor”. Fiquei muito interessado, pois, há muito tempo, ouvia falar dessas crenças populares. Sugeri à Vânia e Andréa que fossem até lá para uma entrevista. O apelido do benzedor era Geraldo do Armindo. É comum, no interior, os filhos adotarem o nome do pai como referência (o pai chamava-se Armindo; ele, Geraldo do Armindo). Fui informado de que vivia em um lugar chamado Bom Jardim. Segundo soube, consegue afastar cobras de terrenos, sarar peladas, hemorragias, apagar fogo em pastos. É uma pessoa humilde e não cobra por seu trabalho. Para ele, é um ofício de fé! E muita gente confirma a eficiência de suas rezas e bênçãos. 


À noite, conheci o Sr. João Alzito, dono do laticínio da cidade, onde arranchamos nossos animais. Ele já foi tropeiro, tendo levado tropas para São Paulo e até para o Paraná. Chegou, certa feita, a ficar um ano e quatro meses fora de casa, negociando lotes de burros, em São Paulo. Levava até 200 burros, que eram vendidos para serem destinados à lavoura e às carroças. “Estes animais eram adquiridos (comprados) nesta região e acertados (pagos) somente quando voltava de viagem. Não precisava nem assinar nota promissória. Era só na palavra.”. Ele levava apenas cinco ou seis peões, três cargueiros com mantimentos e dormiam no “couro”. “Eram muitos os ranchos no caminho onde ‘encostávamos o esqueleto' e descansávamos a tropa. Havia ranchos de 06 em 06 léguas. Ficávamos sete meses na jornada de ida e, enquanto negociávamos os produtos, passávamos um tempo por lá, e outros sete, voltando.”. Embora sacrificando-se tanto tempo longe da família, percebíamos, na nostalgia do seu relato, a “saudade daqueles tempos”. Sua história me lembra um provérbio cigano: “A terra é minha pátria. O céu, o meu teto. A liberdade, minha religião.” Creio ser este o sentimento que dava suporte aos viajantes do passado para se “resignarem” com aquela vida “tão dura”.


A cultura tropeira é nômade por excelência. Em nossa jornada, cheguei a compreender esse fato quando uma cidadã me perguntou se éramos ciganos.


 

 

 

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