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21 de julho de 1999 - (SxM) - Saída de Senhora do Carmo

© Henry Yu Catas Altas - Serra do Caraça - Henry Yu Serra do Caraça

Acordamos, relembrando a hospedagem “classe A”, com queijos e vinhos, na fazenda do nosso anfitrião, Roberto Chaves, vereador de Itabira. Era uma manhã nebulosa. Nos sentíamos nas nuvens, no céu. A rotina de viagem já trazia algumas conclusões. A necessidade diária de fazer as malas era um pequeno empecilho no nosso dia-a-dia. Outra pequena angústia era saber em que dia estávamos. Perdíamos totalmente a noção do calendário. Também não tinha muita importância.


Na varanda da fazenda, naquele amanhecer, à medida que a névoa se dissipava, a gente começava a avistar a Serra do Caraça, Barão de Cocais e a Serra da Piedade, mais à frente. Na região da Serra de Bom Jesus do Amparo, víamos a Cachoeira do Macuco (Cachoeira Alta) e o Morro do Redondo (onde existe uma igrejinha no alto por onde passaríamos, em nossa jornada). Avistávamos ainda a Cachoeira da Boa Vista, a Serra dos Alves, Mata Grande, Bom Jardim, Serra dos Linhares, Conquista, Serra da Lapa (que pertence ao município de Itambé). É o que poderemos classificar de Turismo Contemplativo!


A sensação era de estar no céu. A lua, na noite anterior, já bem cheia, esteve bem perto de nossas cabeças, naquela alta morada. Devo confessar que o vinho me “nivelou” com as estrelas. Na fazenda, conservaram uma bela mata, ao lado da sede (com seus 600 m²) construídos. Pretendem, um dia, fazer dali uma pousada. O Ted estava registrando a localização num GPS (geoprocessamento por satélite),
[1] e dizia em voz alta: “Eixo dos ‘Y’: 7835863. Altitude ?...”. Ainda não tínhamos informações precisas, pois ele não havia conseguido a triangulação com os satélites. Havendo um ponto de interesse, por mais diverso que fosse, lá estava ele, registrando tudo.


E por falar em contatos e triangulação, nosso amigo Ted passou por um grande aperto na noite anterior. Ele havia ficado impressionado com uma garota, mas descobriu que, tendo  apenas 13 anos de idade, era muito nova para um romance. Cortando logo a “paquera”, disse-lhe: “Pô. Tá muito cedo p'ra você namorar!”. Ela, de pronto, respondeu: “É cedo que o dia começa!”. Ele ficou surpreendido e encantado com a aquela resposta rápida e à “queima-roupa”, conforme me disse. Mais tarde, ele ficou mais impressionado ainda com o tamanho do revólver do pai da garota, que não gostou nem um pouquinho da côrte daquele “estranho no ninho”. O Ted teve que sair 'de fininho'. O homem não estava para brincadeira. Decididamente, não queria um genro tão cedo.


Saímos depois do almoço, que se deu no Restaurante da Efigeninha. Um novo companheiro, o Beto (Carlos Alberto), um zoólogo do Rio de Janeiro, integrou-se à nossa Tropa. Ele é especializado em aves. Um grande papo. Levando uma prosa pela estrada, paramos para observar uma pedra de lapa que se prestava como uma cobertura natural para um curral à beira do caminho. Já foi um rancho natural dos tropeiros do passado. A vegetação local parecia uma mata de transição. Logo fomos recebidos por um grupo de cavaleiros, entre eles o prefeito de Itambé, Geraldo Ferreira da Silva, com a bandeira do município, e seu vice-prefeito, José Morais. A tropa continuava acompanhada pelo prefeito de Itabira, que viajava conosco há três dias, e também pelo vereador Zé do Cachimbo, portando a bandeira de seu município. A cada cidade, aumentavam os adeptos, e a Expedição se tornava mais celebrada pelas populações.


A cidade de Itambé do Mato Dentro tem hotel, pousadas, áreas de camping, tratamento de esgoto. O turismo, lá, já é realidade. A igreja Senhora das Oliveiras é um lindo monumento barroco. Um rio, banhando a cidade, forma alagados e cachoeiras. Em nossa escolta, havia uma garotinha a cavalo, a Amanda, de seis anos de idade. Passamos por um cavaleiro, portador de paralisia, que usava o cavalo como meio de transporte. Em grande harmonia, ele e seu cavalo deslanchavam rua afora, agilmente.


Como sempre, fomos direto para a igreja, em reverência ao hábito dos viajantes do passado. Ficamos impressionados com a demonstração do Maurício que, com seus 150 quilos, subiu, montado em  sua mula, a longa escadaria daquela igreja. Não dava para acreditar. Mas era verdade. Sem vacilo, desempenhou aquela façanha com segurança, destreza e competência.


O prefeito Jackson Alberto de Pinto Tavares, de Itabira, e os vereadores Zé do Cachimbo, Hélio e o Roberto encerravam, ali, a côrte que nos fizeram, tendo acompanhado a Expedição Spix & Martius - 1999, enquanto nossa estrada cruzou o seu município. Seu envolvimento cordial com nosso grupo tornou-se marca inconteste do interesse daquela comunidade e de sua determinação política de investir no turismo.


Em Itambé do Mato Dentro, vimos motivos de sobra que agradariam visitantes. A cidade é bastante acolhedora, e o rio, criando recantos, impressiona os turistas. O movimento durante o carnaval é muito intenso. Os jovens são os que mais freqüentam a região. Embora tenha recursos de hospedagem (hotéis e pousadas, restaurantes e bares), a rapaziada gosta mesmo é de acampar.


O prefeito de Itambé, Geraldo Ferreira da Silva, e o vice, José Morais Filho, não só nos deram
a chave da cidade como nos abriram todas as portas. Percebemos uma grande camaradagem entre as cidades de Nossa Senhora do Carmo e Itambé. Essa aliança, representada pelo comparecimento de suas populações, sempre prestigiando as festividades da cidade vizinha, constitui uma característica básica para o sucesso do turismo, que é o entrosamento de municípios. O turismo integrado tem muito mais a oferecer, pois ampliam-se as ofertas, atendendo aos viajantes que acabarão ficando mais interessados por toda a região. Quem, naquele momento, conferia isso era um grupo de ciclistas que vinha pedalando neste circuito e com quem voltaríamos a nos encontrar em outras etapas de nossa viagem.


Nessa noite, tivemos uma reunião entre os expedicionários para avaliarmos a nossa viagem. Alguns reclamaram o direito de compartilhar de todas as informações que surgiam no caminho: atrativos, personagens, valores, culturas... para realizar suas próprias avaliações. Mas essas eram tantas, e aconteciam de maneira tão variada e ágil, que não conseguiríamos organizar nenhum plano para socializar os dados. A avaliação dos fatos caberia a quem eles alcançassem naturalmente. Era tudo muito dinâmico. A própria Expedição nasceu com muito improviso, pois os recursos só foram conseguidos em última hora. Na falta de tempo para um planejamento antecipado, apostamos na competência de todos, e estou certo de que os relatórios de cada um dos expedicionários virão a compilar um panorama amplo da nossa trilha, para elaborarmos uma proposta de desenvolvimento (eco)turístico para a Estrada Real, no trecho Ouro Preto/Diamantina.


Dificilmente, um relator viverá sua experiência no mesmo prisma que outro expedicionário. Acho que teremos diferentes óticas de cada um, ainda que, no mesmo momento, de igual cenário, em um só caminho. Acreditando nessa possibilidade, comprometemo-nos, na reunião, a realizar um primeiro relatório, em 48 horas, para podermos gerar informações para a mídia que nos acompanhava. Dessa maneira, efetuaríamos também uma avaliação sobre as possibilidades do nosso livro, além de municiar a imprensa sobre o que tínhamos inventariado, até então, em termos de questões culturais, aspectos ambientais, nossas impressões e experiências da viagem.


Em nosso projeto, a mobilização provocada pelos veículos de comunicação tornava-se um instrumento fundamental, para nos dar suporte e alavancar o turismo naquele percurso. Uma vez mais, firmamo-nos no propósito de todos gerarem seus textos a serem inseridos em nosso livro, e aquele pequeno resumo que apresentaríamos serviria como laboratório literário para premeditar e criticar as possibilidades desta edição.


Uma colheita positiva daquela reunião foi identificar que já estávamos na metade da viagem, e havia um crescente entrosamento do grupo. Outro componente que nos unia era o propósito de alcançarmos os resultados pretendidos e a disposição de superar qualquer dificuldade.


No dia seguinte, visitaríamos uma piscina natural, com uma pequena queda d’água, o Entancado. Conheceríamos a Prainha e diversos atrativos na região. Não dava para ver tudo, e tivemos que abdicar da Cachoeira Cabeça do Boi, pois o tempo era curto.


Já era 1:30 da manhã, e precisamos encerrar a reunião para irmos dormir.


[1] GPS – Este aparelho, disponibilizado pelo IGA (Instituto de Geociências Aplicadas) e controlado pelo Ted, pretendia registrar os pontos de interesse para mapeamento, sinalização e informações de atrativos, pousos rurais em potencial etc. GPS é um aparelho desenvolvido pelo Departamento de Defesa norte-americano, que funciona como sistema de posicionamento para localização. Existe uma “constelação” de satélites, localizados aproximadamente a 20 mil km da Terra, que são próprios do sistema GPS, dando cobertura 24 horas, em qualquer lugar em que se esteja. O satélite manda suas chamadas “efemérides” – dados de posicionamento – e, por ondas de rádio registradas no receptor, temos também a elevação. Depois, o IGA vai processar estas informações num software específico para produção dos mapas desta Expedição.



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