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22 de Julho de 1999 - (SxM) - Saída de Itambé do Mato Dentro

O tempo tomava outra dimensão. Era cada vez mais difícil lembrar a data em que estávamos. A gente vai perdendo a noção e a relação convencional com o calendário. O que nos marcava era só a claridade como referência de dia, e o escuro, de noite. No mais, todo dia era dia de festa.


Logo ao sairmos do hotel, conheci o Sr. Deolindo de Melo Lage. Esse cidadão havia sido prefeito de Itambé do Mato Dentro em 1963 e, depois novamente eleito, voltou ao Governo Municipal, quando conseguiu a emancipação da cidade. Ele nos acompanhou até a ponte, de onde poderíamos observar um velho pilar da antiga ponte que cruzava o rio no tempo dos tropeiros.


A kombi da Prefeitura nos levou para um tour. A caminho, atravessando por dentro do rio com a kombi, vimos ao lado uma ponte-pêncil, ligando as margens do rio Cabeça de Boi por cabos de aço. O vice-prefeito, Zé Morais, e hoje prefeito em exercício do município, acompanhava-nos naquele momento e comprometeu-se a dar os devidos cuidados para que aquele atrativo se mantenha conservado e utilizado por turistas.


Seguindo para o Entancado, procurávamos ser objetivos, pois, a todo momento, um novo cenário nos retinha. O rio ao nosso lado formava, em seus remansos, praias e recantos. Passamos por uma fazenda onde o proprietário cobra a taxa de R$2,00 para deixar você acampar em sua área.


A areia é branca, as pedras formam verdadeiros decks para se “quarar” ao sol. Não tínhamos levado calções, mas, chegando lá, decidimos mergulhar sem roupa mesmo. No aconchegante Entancado, alguém filosofou: Aqui é um lugar em que quem tá sem nada, nada, e quem tá com nada, tá com tudo. Não deu outra. A água estava deliciosa e o lugar era bem resguardado num recanto de uma pedreira que descia, formando uma piscina natural. Surgiu, então, a idéia de criarmos um novo produto turístico na Estrada Real: o naturismo. Estávamos em um espaço estratégico, evitando “curiosos”, pois oferecia, em sua condição geográfica, grande privacidade. O Prefeito gostou da idéia, mas precisaria submetê-la, em um plebiscito, à aprovação da comunidade. Naquela excepcional área havia ainda uma mata linda. Cenário magnífico. Luz do sol atravessando as copas e folhagens das árvores. Ruído da água. Pássaros voando e cantando. Uma ou outra vaca curiosa a nos observar. Para completar o clima, nosso fotógrafo, o André, sacou sua gaitinha e “mandou” um blues que me levou à seguinte consideração:
André fotografa em celulóide, revela em alegria e copia em sinfonia.


As límpidas águas me sugeriram perguntar ao Ted se aquela paisagem era semelhante a Bonito, no Mato Grosso, de onde ele chegara recentemente. Ele “mandou” em cima, respondendo: 'Lá é Bonito. Aqui, é o Lindo de Minas Gerais'
.


Uma fruta, à beira do caminho, despertou minha curiosidade. Parecia um pequeno maracujá. O Prefeito identificou como sendo “grão-de-galo”.


O perfil das serras com acabamento em pedras, o rio correndo mansamente, o ipê-roxo florido, eram um cenário próprio ao naturismo. Outra vocações daquela área eram: o campismo, caminhadas e escaladas leves, além do lazer, natação etc.


Ao som dos pios dos pássaros “quero-quero”, saímos daquele encantado Entancado. Curtindo as borboletas na grama, o que dava o maior colorido àquele quadro, seguimos para Rio de Peixes, onde dormiríamos em uma fazenda.


No trecho, encontramos com um cavaleiro, próximo ao córrego do Funil, que nos disse já ter tocado tropa até São Paulo, onde vendia os burros para tração de carroças. A cultura tropeira ainda é marcante na memória da região.


Naquele local, o turismo já trazia preocupações, daí algumas placas espalhadas, recomendando a preservação do ambiente. Era uma iniciativa da Prefeitura, uma vez que os visitantes vinham abandonando lixo em seus acampamentos. É preciso sinalizar e educar o turista, para que sua presença não se torne uma ação predatória. Itambé já se preocupa com isso.


Seguimos rente à Serra do Paredão, onde tínhamos notícia da presença de um ermitão que morava em uma caverna. Não foi difícil encontrá-lo. Ele não se preocupava muito em se esconder. Bastava que fôssemos vistos nas cercanias de sua caverna que ele vinha até nós. Dominguinhos é como se chama. Com sua pele seca de sol, olhos claros, um pano amarrado à cabeça e muito falante, convidou-nos a ir conhecer sua morada. Ele não era tão "doido" quanto os 37 anos de isolamento poderiam tê-lo transformado. Apenas adaptado aos “fantasmas” locais, buscava resguardar-se de ataques de cobras, chuvas de vento, ratazanas que poderiam roubar sua comida. Para tudo tinha uma estratégia. Cozinhava num canto próximo à sua “cama”, ficando fora do alcance da chuva. Amarrava seus víveres no alto, para que os ratos não lhe roubassem os mantimentos, e deixava um fogo defensivo, para que as cobras não se aproximassem. Era como organizava seu espaço. Alegre e prosa, foi contando sua vida, apanhou seu violão e cantou para nós. Insistiu, e tivemos que aceitar uma lembrança para cada um de nós. Não importa se um pimentão, uma fruta ou uma batata. E recusou qualquer doação nossa. Com essa atitude e generosidade, demonstrava um caráter social, surpreendendo-nos por sua opção de viver isoladamente. Contou-nos que tivera um desgosto amoroso e que saturou da vida em cidade. Já tinha morado até em São Paulo. Não agüentando mais aquela vida, refugiou-se nas montanhas (o papo dele me lembrou do professor Maldonado em Acuruí).


Novamente, lanço mão dos ensinamentos da minha professora Deolinda que, em suas lições de Geografia e História Aplicada ao Turismo, dizia-nos sobre algumas manifestações culturais genuínas do século 18:


... os conflitos sociais gerados pelo Ciclo do Ouro, em que conviviam a opulência e a miséria, a esperança e a opressão, e tantas outras contradições, foi o que gerou um movimento autêntico, de inspiração popular. Apareceu um tipo de religioso inédito: o Ermitão – um missionário que não era padre, um leigo tomado de misticismo.
Peregrinos místicos, vestidos de tecidos rústicos, estes ermitãos povoaram os caminhos, estradas e vilas mineiras durante muito tempo. Um deles, que ficou famoso, foi o irmão Lourenço, fundador do Caraça.


Despedimo-nos do Dominguinhos, e comecei a compreender mais o lado espiritual dos caminhantes que dão um sentido penitente à sua aventura. De uma maneira ou de outra, estão buscando um novo sentido em suas vidas. Creio que deveria fazer a “chamada” à noite, para verificar se nenhum dos expedicionários ficara em uma caverna vizinha à do Dominguinhos. Afinal, como coordenador, não podia perder ninguém pelo caminho.


Na Fazenda do Sobrado, onde dormiríamos aquela noite, fomos recebidos por Seu João Gomes, o proprietário, que, juntamente com seus empregados, ofereceu-nos um jantar feito no fogão de lenha. Em uma conversa agradável naquela cozinha, trocamos impressões sobre a viagem. Contamos ao Seu João que identificamos, em Entancado, uma área de vocação para o naturismo, e que, para isso, dependíamos de um consenso da população. Ele não hesitou em disponibilizar um local que conheceríamos no dia seguinte, em suas terras, à beira do Rio de Peixes, para tal finalidade. No dia seguinte, pudemos conferir, e o local é mesmo privilegiado para se pensar no projeto de naturalismo.

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