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24 de julho de 1999 - (SxM) - Saída da Fazenda do Sobrado

© Maurício Vasconcelos Mato Verde - Serra do Espinhaço - Maurício Vasconcelos Serra do Espinhaço

Já estávamos no dia 24, sábado. Faltava só uma semana para terminarmos a jornada. Seguiríamos para Morro do Pilar, deixando para trás a hospitalidade fenomenal do Seu João. Desfrutamos de um autêntico pouso rural, naquela sede de fazenda cuja arquitetura era do estilo dos velhos casarões coloniais. Ali identificamos um potencial para o segmento do Turismo Rural. O Seu João cria búfalos, produz queijo, utiliza somente tração animal em sua produção (carro de boi, carroça etc.). Há, em sua propriedade, uma mini-usina hidrelétrica, que alimenta o seu consumo de energia. Tem também um projeto experimental de combustível de carvão, que alimenta uma irrigação mecanizada. Quem o assessora é a CEMIG (Companhia Elétrica de Minas Gerais), que tem uma equipe especializada em energia alternativa. Aliás, um caminho para o Brasil e Minas Gerais gerarem uma energia limpa e econômica. Leve-se em conta, também, que a natureza agradece qualquer iniciativa que polua menos do que o petróleo, e gere menos riscos do que a energia nuclear. As represas e reservatórios de grande porte, padrão da maioria das usinas hidrelétricas, exigem elevados recursos financeiros na sua construção e, para distribuir a energia para outros centros, é necessária maior extensão de cabeamento, o que eleva o custo para o consumidor e traz altos tributos ambientais sobre o ecossistema de suas bacias hidrográficas.


Seguindo pela Serra do Espinhaço, avistamos à esquerda a Serra do Cipó. Gostaria de me remeter, nessa visão, e “aterrissar” naquelas paragens para tecer algumas considerações. Hoje, há naquela área 33.800 hectares, protegidos pelo IBAMA, tombados como Parque Nacional da Serra do Cipó. Informações: (31) 291-6588. Existem trilhas que nos levam de Morro do Pilar ao Cipó, que são velhas rotas de tropeiros e que também integram essa malha viária a que chamamos Estrada Real. Nesta Expedição, não iremos ao Cipó, pois estamos seguindo as “pegadas” históricas de Spix e Martius. Mas gostaria de registrar o esforço que a sociedade tem empreendido para capacitar-se na oferta turística da região. Com grande potencial para esportes da natureza, podemos desfrutar de grande número de cachoeiras, rios, campos rupestres, cerrados e do maior conjunto florístico do Brasil. Você pode visitá-la e voltar para Belo Horizonte, caso não queira dormir por lá, pois se situa a apenas a 100 km da capital mineira. Podem-se praticar, naquela área, diversas atividades ecoturísticas: escalada em rocha, canyoning, caving, cicloturismo, passeios a cavalo, trekking, canoagem,[1] off-road etc. Entende-se como “etc” outras opções, como, por exemplo, simplesmente ir para curtir seu romance ou desfrutar de aconchegantes “cantinhos” da fazenda do Cipó Velho, outrora rancho de tropeiros, conhecido por Santa Cruz do Cipó, e que, até hoje, aloja visitantes – tel.: (31) 3385-1009. São inúmeras as pousadas e hotéis da região. O antigo Hotel Veraneio - (31) 3286-1731 -, a Pousada Monjolo - (31) 3651-2456 -, Pousada Alto Palácio - (31) 3484-1500 -, Pousada do Rodrigo - GAIA: (31) 3281-5094 - e dezenas de outras hospedarias da região. Restaurantes, barzinhos, campings, vendas e botecos sempre a postos para atender os viajantes, naqueles antigos caminhos que também integram a malha viária histórica do passado.


Para ir por rodovia, é só pegar a MG-10; são 100 km. No caminho, passa-se por Lagoa Santa. Existem patrimônios e atrativos a serem vistos, como as grutas da Lapinha,[2] onde Peter Lund realizou suas pesquisas. O bandeirante Fernão Dias também andou por ali. Tem diversas hospedarias, com um sítio histórico na Fazenda das Minhocas, à beira de um caminho antigo, que atalha para Morro do Pilar.


É para lá mesmo que seguíamos! Só que nosso percurso se dava do outro lado da Serra do Espinhaço. Minhas reflexões sobre o Cipó, Lapinha e Lagoa Santa se deram simplesmente porque joguei um foco nessa paisagem, que sobressaía no horizonte visual da rota que percorríamos.


Seguindo, então, passamos por um lugarejo chamado Areias, e logo estaríamos em Morro do Pilar. Fomos recebidos por uma escolta de cavaleiros que nos acompanhou até o centro da cidade, onde não faltou solenidade e apoio à nossa tropa. O prefeito, Geraldo Albano de Oliveira, nos levou até o monumento criado para o Intendente Câmara, na área onde se instalou a primeira fábrica de fundição de ferro em alto forno da América do Sul. Esse local estava sendo transformado em APA, num estudo feito com o IEF. Em seu projeto foi incluída a delimitação de uma área de interesse histórico nacional, em que, por sugestão do expedicionário Fabiano Lopes, Superintendente de Projetos Especiais do IEPHA, o local se tornaria também um sítio arqueológico. Essa iniciativa figura como mais uma conquista e realização da Expedição Spix & Martius - 1999 concretizada pelo caminho.


Na cidade, notamos que o artesanato em palha era trançado pelas senhoras, como se fosse um hábito de “tricotar”. Esse fato merece uma reflexão para que se comente a importância que o turismo pode representar para o setor. Daqui até o Jequitinhonha, veremos muita produção artesanal e uma maneira de intensificar sua comercialização é com o turismo. Aliás, não só o artesanato, mas centenas de atividades estarão sendo incentivadas com os benefícios desse mercado. O artesão irá obter um preço melhor na relação direta com o comprador. Poderá evoluir em sua arte, de acordo com a crítica saudável do consumidor. E, dessa forma, com sua auto-estima elevada, a produção intensificada, a economia implantada, somamos frutos para colher no canteiro do turismo.


Existe meio milhão de artesãos em Minas Gerais. Nossa tradição começou no século 18.


Muitos foram os artistas e artesãos que contribuíram para que aparecesse o estilo barroco, desenvolvendo nossa arquitetura, pintura, música e escultura. Esta arte em Minas refletia mudanças sociais e econômicas, e sua força de atração e repulsão, de identidade e de oposição foram parte de um processo anti-colonial.(Ensinamentos de Deolinda)


Havia na cidade uma festa de rodeio, e todos da região se encontravam lá. Com atividades de picadeiro, barraquinhas com jogos de azar e muita caipirinha, havia diversão para valer. Foi duro convencer  a turma de ir embora. Tive que praticamente “arrastar” os tropeiros para o rancho na fazenda do Manoelzinho, onde dormimos. Alguns não quiseram nem saber e ficaram até muito mais tarde.Uma cena curiosa nos chamou a atenção. Na porta do Parque de Exposições, local da festa, um cavaleiro que só podia estar muito bêbado para agir daquela maneira, em pé, cochilava, com os braços debruçados sobre o arreio de seu cavalo, que pacientemente o escorava e aguardava sua “melhora”. Impassível, o cavalo parecia saber que, se desse um passo, seu dono perderia o equilíbrio. Divertimo-nos com aquela cena cômica e ainda mais impagável porque o trânsito denso naquele local festivo tinha que se desviar da “dupla” que permanecia estática no meio do caminho. O alto som da música, os fogos de artifício, nada era capaz de acordar aquele 'peão-bebum'. E seu santo-cavalo mantinha-se firme em seu apoio. Nunca vi nada parecido no reino da paciência animal. É bom que se registre o extremo de companheirismo a que um cavalo é capaz de chegar com o seu dono. Fui embora, deixando esta cena para trás e refletindo sobre a maldade que os peões aplicam para “enervar” os animais no picadeiro, chegando a torturá-los com eletrochoques e cortes com as afiadas rosetas de suas esporas. Quanta ingratidão! Quanta burrice! Esse tipo de atitude precisa ser enquadrado pela lei 9.605 (dos crimes contra o meio ambiente) [3]  por caracterizar crueldade para com os animais.

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 [1] Nossa equipe móvel do documentário havia gravado umas imagens de canoagem no rio Cipó, próximo à Cachoeira Grande. De improviso, apareceu na figuração, uma família de capivaras. A área faz parte do Parque.

[2] Existem mais grutas na região, onde se pode praticar o “caving”. Os estudiosos procedem suas pesquisas à luz das descobertas de Peter Lund, cuja visitação enquadra-se em Turismo Científico, Espeleológico e Ecológico. Há, também, grupos de escolas levando seus alunos para uma prática de Turismo Ecopedagógico. Os sítios rupestres são numerosos no estado de Minas Gerais (mais ou menos 300 registros nos últimos anos). A arte rupestre é outro atrativo na área do Sumidouro em Lagoa Santa, tal qual pudemos verificar nos grafismos encontrados na Serra do Espinhaço, em Cocais, Itapanhoacanga, São Gonçalo do Rio das Pedras.

[3] Art. 32. Praticar ato de abuso, maus tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos, nativos ou exóticos. Pena – Detenção de três meses a um ano e multa.

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© Maurício Vasconcelos Mato Verde - Propriedade rural na Serra do Espinhaço - Maurício Vasconcelos Propriedade rural na Serra do Espinhaço