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25 de julho de 1999 - (SxM) - Saída da Fazenda do Manoelzinho

© Henry Yu Conceição do Mato Dentro - Cachoeira Três Barras - Henry Yu Cachoeira Três Barras

Para homenagear a façanha do Intendente Câmara, que viajou de Morro do Pilar para Diamantina no começo do século 19, levando sua primeira produção de ligas de ferro fundidas, juntou-se a nós um novo grupo. Era a comitiva do Intendente Câmara, coordenada pelo jornalista Américo Antunes. Seguiriam conosco o engenheiro agrimensor Raul, que logo apelidei de E.T., pois levava um aparelho de GPS acoplado em seu capacete, que mais parecia um acessório interplanetário. Compunham também a comitiva o Bigode (Tininho, habilidoso tropeiro); William (jornalista de Diamantina); e Danilo, de 16 anos, outro jovem cavaleiro, de uma geração que acredita mais na cultura do cavalo do que na da motocicleta.

Esse percurso ficou ainda mais agradável quando, numa ponte sobre o Rio Mata-Cavalos, conhecemos uns viajantes que por ali passavam. Um deles, o Saulo Laquini, esclareceu-nos quanto à razão do estranho nome do rio, dizendo que havia por ali uma fazenda chamada Mata Cavalos – nome supostamente decorrente da acidentada topografia do terreno, que promovia escorregões, às vezes fatais, aos animais que pastavam em sua serra. Disseram-nos que ali fôra um quilombo de negros, ex-escravos, que viveram por ali durante muito tempo, depois que a proprietária lhes transmitiu a posse de suas terras por inventário de herança. O “papo rolava” quando ficamos sabendo que entre eles encontrava-se o compositor Toninho Gerais. Suas composições são muito famosas, mas sua pessoa, confesso, ainda não conhecíamos. Ele, extremamente simpático e solidarizando-se com o nosso projeto, não só nos brindou cantando duas de suas inspiradas composições, como autorizou que as usássemos no documentário, permitindo-nos gravar sua imagem e o som. Tirou do “baú” nada menos que o “pagodão” Mulheres – que tinha sido gravado recentemente por Martinho da Vila. Felizes com aquela “canja”, os tropeiros pediram mais. Ele não se fez de rogado e apresentou-nos outra de suas composições que constituía o último sucesso de Zeca Pagodinho: Seu balancê. Foi demais! Nosso câmera, o Toni, que também é músico, comentava comigo “que este rapaz compõe os mais talentosos e legítimos pagodes. Músicas inspiradas em recintos e ambientes da genuína cultura do samba”.

E olha que o Toninho nos disse que sua turnê por aqueles caminhos (ele hoje reside no Rio de Janeiro) era para reciclagem cultural, busca de inspiração e laboratório criativo. Vejam vocês, a influência de nossos valores na formação da cultura brasileira.

Estávamos a 14 km do nosso próximo destino, Conceição do Mato Dentro. Neste caminho, pudemos tomar um banho no Rio do Frade, enquanto alguns praticavam rapel (descida de alturas por cordas), na ponte que atravessava o rio. Logo que saímos dali, conhecemos mais um desses diplomatas naturais em hospitalidade. Era o Nelson Simões Pimenta, mecânico em Conceição, que tinha uma “tapera” perto do rio. Ele exigiu que entrássemos e provássemos de sua pinga e tira-gosto. Vimos ali um potencial para organizar um comércio, um tipo de “venda” que dê suporte aos banhistas do caminho que queiram desfrutar do Rio do Frade. Ted logo o cadastrou para futuros contatos, para que venhamos a estimular essa sua vocação natural.

Ao sairmos daquela tapera, encontramos com a equipe da Lis (Marcelo, Paulo, Wellington e Suzana) que “espreitava” nossa saída, a fim de gravar imagens para o documentário. Era a equipe volante, já que o Toni atendia como equipe de campo.

Faltavam 10 km para chegarmos à Conceição. Nesse percurso, encontramos com alguns caminhantes. Eram 16:50, e fomos recebidos por cavaleiros do Clube do Cavalo, erguendo suas bandeiras (Clube do Cavalo, da Prefeitura Municipal de Conceição e a do Brasil), para nos escoltar cidade adentro.

Lá, uma vez mais, fomos recebidos com toda a fidalguia. Esperavam-nos, na praça da cidade, a banda de música, grupos folclóricos que tocavam e dançavam a Marujada. Naquela localidade, o Dr. José Aparecido de Oliveira e sua esposa, Dona Leonor, juntamente com o prefeito Juvêncio Guimarães, Sílvia Costa Nunes, José Murta, Hilda Cintra e com apoio do Restaurante Farol, encarregaram-se de nos acolher. Dormimos na Casa da Cultura. Em Conceição, o turismo já é uma realidade. Na igreja do Bom Jesus do Matozinhos, de estilo neo-bizantino, durante o jubileu, chegam a receber 65 mil turistas. Pelo menos dois mil vão a cavalo. Esse é um turismo religioso que faz parte de nossa cultura. A propósito, naquele cenário, há um altar que foi projetado por Oscar Niemeyer, para a comemoração dos 200 anos do jubileu. Nesse altar, do lado de fora da Basílica, procede-se à bênção dos cavaleiros.

Os esotéricos e os penitentes encontrarão, na ocasião do jubileu (de 14 a 24 de julho), razões para uma peregrinação autêntica. Esse é mais um dos segmentos de grande vocação nesse corredor turístico que estamos inventariando. A Estrada Real é tão vasta quanto é vasto o mundo (plagiando um texto do poeta itabirano, Carlos Drummond de Andrade) dessa diversificada rota dos bandeirantes e aventureiros de nossos tempos: os ecoturistas!

O mercado, ali, é de grande vocação também ao Turismo Histórico e Cultural. A Dona Leonor vinha se empenhando em resgatar a produção de bordados que fôra importante no passado. Também o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), naquele município, aplica seus préstimos ao desenvolvimento do turismo.

Outro “aplicado” no desenvolvimento sustentável do turismo na região é o Luiz Cláudio Oliveira, Secretário Municipal de Meio Ambiente. Com entusiasmo, acompanhou-nos e falou da Cachoeira do Tabuleiro, informando-nos sobre os rigores e cuidados necessários para sua  exploração turística. O interesse é tão grande que é preciso controlar os visitantes para não degradarem a região. Sua esperança é a divulgação cada vez maior do conceito do Ecoturismo. Afinal, são quase 300 metros de queda d’água. Já existem até esportistas radicais descendo em cordas no meio das águas (canyoning). Contudo, para apurar a qualidade ecoturística, tem de haver respeito e consciência ambiental. “Na prática!”, argumenta o Luiz. Conosco também o Presidente e o Diretor da ONG SAT (Sociedade dos Amigos do Tabuleiro), igualmente preocupados em organizar o turismo no Tabuleiro, em consonância com prognóstico técnico/ambiental.

Há outras cachoeiras na região, como a do Rabo de Cavalo e muitos recantos mais.

Um artista plástico, morador da cidade, já escreveu seu nome na “calçada da fama” dos artistas de renome internacional. Trata-se de Said Santiago.

O congado tem, ali, um movimento formidável. A cultura é pulsante pelas ruas daquela cidade. Conhecer novas raizes culturais é uma das buscas que incentivam os ecoturistas a aventurarem-se em suas viagens.

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