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26 de julho de 1999 - (SxM) - Saída de Conceição do Mato Dentro

Os animais dormiram numa fazenda próxima, e nós, na Casa de Cultura. A jornada de ontem foi puxada; 37 km. Era necessário que todos tivessem dormido bem e estivessem recuperados. Como de praxe, os caminhantes saíram cedo, e os tropeiros ficaram para almoçar antes de sair.


No Restaurante Serra Velha, uma comidinha típica, cheia de verduras típicas, como o gondó – que eu também conheço como Maria Gomes –, o ora-pro-nobis, broto-de-samambaia. Gostei também da canjiquinha feita sem carnes. Estavam presentes alguns moradores de Senhora do Carmo, com quem me sentei, já como “velho amigo”. Aliás, amizade é um dos valores que ainda se cultuam nesses caminhos por que estávamos passando. Hoje receberíamos mais um companheiro na tropa. Era o Sr. Eustáquio, da EMATER.


Do restaurante, tomamos o rumo de Córregos. Não sei se o termo certo a se empregar aqui seria “tomamos o rumo”. É que perdemos as pistas e acabamos por viver uma aventura emocionante.


Quando nos vimos “perdidos”, buscamos nos informar em uma velha fazenda à beira do caminho. Indicaram-nos um atalho e nele nos embrenhamos. A noite caía, eram 19:00, e ficamos aflitos pensando em ter que dormir por ali para prosseguir ao amanhecer. Dois companheiros nossos, dos Intendentes, adiantaram-se e tomaram um trilho diferente do que intuíamos, e isso determinou uma maior demora até que os recuperássemos. Mas a lua, quase cheia, facilitava nossa visão. Mesmo em meio à mata fechada, seus raios transpunham as folhagens e clareavam os trilhos. Tínhamos o GPS, mas estávamos sem o mapa. Portanto, não havia como nos localizar. Só pudemos, depois, efetivar os registros de nossa localização, quando o “E.T.” os lançou no mapa, demonstrando onde estivemos. O senso de direção era o nosso radar imaginário. Nosso grupo não estava nem um pouco preocupado. Maurício e Pimba cantavam muito. Haviam ganhado uma nova voz para ampliar o coro. Era o Fabiano, revelação musical na trilha dos perdidos. A mula Tesourinha, que o Geraldo montava, também não levava em conta a situação e, “vira e mexe”, punha-se a corcovear com ele como se estivesse em um rodeio qualquer. De repente, começamos a verificar alguns vestígios da Estrada Real. Eram calçamentos de pedras e pequenas passarelas para que as caravanas do passado não atolassem as rodas dos carros de boi, nas travessias dos cursos d’água. Ouvimos o estampido de foguetes que pareciam sinalizações em nosso apoio, confirmando cada vez mais a nossa opinião de que estávamos seguindo a coordenada certa. Lá pelas 23:00, deparamo-nos com nosso carro de apoio, no qual estavam o Helinho e o Toni, à nossa procura. Com uma “rodada” de pinga, brindamos aquele feliz encontro.


Foi uma festa ainda maior quando chegamos, em seguida, a Córregos. Momento de grande emoção e irmandade. A preocupação de todos – depois nos confirmaram que soltaram aqueles foguetes como estratégia para nos orientar -, e o carinho com que nos receberam, serviram para nos unir, ainda mais. Nós descemos pela rua de Córregos cantando o "Peixe Vivo" e valorizando a estrofe: “como poderei viver, sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia”. Os caminhantes, a equipe do apoio móvel e alguns moradores, perfilados em semicírculo, todos abraçados, aguardavam-nos no meio da  rua num gesto simbólico de abraço coletivo.


Melhor “boa vinda” não poderíamos ter. Córregos superou nossa expectativa. Acomodados em duas casas locais, contamos com o apoio das senhoras da cidade, que têm uma espécie de associação para dar assistência à comunidade. Elas se encarregam de coordenar a limpeza da cidade, atender aos turistas e dar orientações gerais. É como um matriarcado. Grande chance de fazer bem feito. Afinal, a política, dominada por homens, não tem provado muita competência. Tenho esperança de que, à medida que as mulheres aumentem seu poder de decisão política, maior serão as possibilidades de harmonia social. O poder dominante já deu provas de incompetência. Precisamos de um comando intuitivo para uma nova ordem social.


Jantamos e dormimos, para desfrutar melhor daquele hospitaleiro lugar no dia seguinte.

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