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27 de julho de 1999 - (SxM) - Saída de Córregos

© Henry Yu Serro - Vista parcial da cidade - Henry Yu Vista parcial da cidade

Como em todas as demais vilas do passado, as igrejas mantidas de pé se tornam testemunhas da história, da arte e da fé. Na parte de cima da cidade, estava a igreja Senhor dos Passos. O nome Senhor dos Passos liga-se ao fato de que nas quatro janelas de sua torre eram colocados lampiões que serviam para orientar os passos dos caminhantes e tropeiros do passado, funcionando como faróis. Coincidentemente, foi do pátio daquela igreja que os companheiros expedicionários, na noite anterior, soltaram os fogos para nos orientar no deslocamento de Conceição para Córregos. O raciocínio deles foi também alcançar um ponto alto para que os estampidos fossem percebidos a longa distância.


A igreja de Nossa Senhora Aparecida parece que era a mais utilizada. Sua posição estratégica, no meio da cidade, facilitava a freqüência. Seus alto-falantes, como pudemos observar em outras cidades, tornavam-se “a voz de Deus e a voz do povo”. Por eles fomos saudados, ali e em outras cidades também. Nas pequenas vilas, os habitantes são informados pelos microfones paroquiais ou pelo badalo dos sinos.


Nossa hospedagem se deu por cortesia dos cidadãos, pois ainda não há pousadas ali. Acredito que se qualquer turista pedir pouso, não lhe negarão. No entanto, creio que com a competência e liderança daquelas senhoras e pequena orientação, improvise-se, quando necessário, um espaço próprio para hospedaria e com ganhos para a comunidade.


Córregos é um lugar em que também se pode acampar, mas, hospedando-se em casas de família, tem-se maior possibilidade de conviver e conhecer pessoas muito especiais. Desfrutar daquela convivência é crescimento. Dona Inezita, Dona Marilac Duc[1] são dois exemplos dessa força. Outra personagem ilustre na cidade é o bispo “Pelé”, que ganhou esse apelido por ter sido o primeiro bispo negro no Brasil. Depois de se aposentar, voltou a morar em sua terra natal, tornando-se um orientador fundamental naquela comunidade.


Próximo a Córregos, soubemos de uma caverna que os moradores diziam ser um túnel de mais ou menos 200 metros. O povo da redondeza gostava de desafiar a coragem, enfrentando aquele escuro até sair do outro lado. Para aumentar a “farra”, no meio da escuridão, trocavam tapas e pontapés, pois ninguém conseguiria identificar o autor.


Seria esse um autêntico turismo do tempo das cavernas? “Brucutur”! Quem me contou essa história foi o Renato, marido da Dona Marilac, que já “curtiu” essa brincadeira no túnel natural. Ou sobrenatural? O Renato queria negociar um caminhão de burros (um lote de 20 cabeças) a R$600,00 cada. Como o negociante de burros era o Maurício, passei-lhe a oferta. O Maurício, que já estava ligado na conversa, arrematou: “já que provocou, vou dizer. Por este preço eu tenho p'ra vender!”. Renato não deixou passar e, falando de catireiro para catireiro, arrematou: “Urubu é preto em tudo quanto é lugar.”. Assim, ele fez alusão ao fato de que quem vende tem tabela de custo semelhante. Eu, “cá com os meus botões”, já penso que é efeito da globalização. Não adianta você ir a Carmo do Rio Claro ou a Córregos, que você encontrará sempre os preços muito equiparados em toda a sorte de produtos. Isso vem ocorrendo no mercado em geral, de Nova York ao Chuí.


Alimentados por aquela energia especial, partimos de Córregos para a meta seguinte: Itapanhoacanga. Distância de mais ou menos 20 km. No percurso, fomos recebidos por uma comitiva de cavaleiros da cidade. Uma das líderes era a professora Nídia, que montava seu burrinho Sadan, no qual, rotineiramente, viajava para lecionar para crianças, nos diversos cantões das cercanias. Esse encontro se deu numa pequena vila chamada Tapera.


Tapera é um desses lugares em que você se sente distante do mundo. Tem um riacho cruzando a cidade e é uma parada agradável. É bom lembrar que há como você percorrer esse caminho em veículo motorizado, como fazia o nosso pessoal de apoio-móvel. Mas devemos olhar a paisagem com um prisma de calma, lutando contra o estressante ritmo dos automóveis e das cidades. Se você quiser se corresponder com essa parada, o e-mail é:
tapera@bhmail.com.br


Quem veio nos receber foi o Sr. Antônio de Oliveira, portando a bandeira do Brasil. Era sempre solene e significativo o nosso encontro com os cavaleiros da região. Ele era de Itapanhoacanga e, com um grupo, foi nos receber na metade do caminho. Era um ritual quase político. Deixamos o município de Conceição do Mato Dentro e entramos na fronteira de Alvorada de Minas, onde se encontrava nosso próximo rancho. A expectativa de que nosso projeto venha a fomentar emprego, formação, educação e desenvolvimento, impõem-nos ainda mais que busquemos concretizar o “ecosonho” do turismo, vindo a alcançar essas metas.


Depois de tomarmos uma água no bar Lambicado, enquanto alguns companheiros preferiam outros líquidos etílicos, seguimos com aquela escolta.


Ia crescendo o contingente de cavaleiros que nos acompanhava. O vento movimentava as bandeiras do Brasil, de Alvorada de Minas, de Itapanhoacanga, da comitiva do Intendente Câmara e a da nossa Expedição Spix & Martius - 1999.


Subimos a Serra do Pico Aceso (também chamada de Serra da Escadinha), onde nosso companheiro Fabiano descobriu umas inscrições rupestres, aparentemente muito antigas. Registrou o ponto no GPS e pretende, se os estudos confirmarem os valores históricos aparentes, transformar a área em sítio arqueológico. Será mais um resultado da passagem de nossa Expedição. Ficamos todos emocionados com a importante descoberta do nosso companheiro.


Sempre, nesses grupos, havia cantores, contadores de casos e improvisadores. Esses tipos conquistam os turistas e a todos nós. Veja aqui um desafio improvisado que os cavaleiros recém-juntados a nós vinham declamando em solfejados versos:


Pagode p'ra ser pagode
Não pode mudar de rima.
Morena p'ra ser bonita
Tem que ter cintura fina.
Eu namoro só p'ra fazer hora,
Mesmo sem intenção de casar.
Quando eu vejo uma moça bonita,
O que me palpita é só namorar.
O autor alegremente nos acompanhava. Ele se chama José Carvalho.


Nessa 'viagem' cultural, chegamos a Itapanhoacanga. Havia uns 50 cavaleiros nos acompanhando. Lua quase cheia. Com tanta energia, transcendíamos as expectativas iniciais do nosso projeto. Na comunidade havia uma festa para nos receber. Barraquinhas, quimeras e forró! O prefeito Antônio Simões Leite, o pessoal da Associação Comunitária de Alvorada de Minas (a cujo município pertence Itapanhoacanga), e toda a população nos aguardavam festivamente. Esta era uma estrada real. Senti-me em uma 'Coluna Prestes'. Se com o cavalo escreveram a história do passado, a cavalo escrevíamos a história do futuro. Permito-me essa projeção porque o interesse de todos me garantia essa possibilidade. Haveremos de nos organizar para alcançar algumas metas compatíveis à vocação do mercado daquele destino. O SENAC-MG será nosso quartel. Devemos nos comprometer com este ideal. Estrada Real era, na verdade, estrada de esperança de desenvolvimento e emprego para a região. De alguma maneira nos elegiam para ajudá-los. Espero que a nossa Expedição contribua com essa missão e concorra com esses fins.


Soube de um fato curioso sobre uma das igrejas de Itapanhoacanga. O IEPHA estava estudando a sua restauração, e um de seus pesquisadores, o Jáder Barroso Neto, contou-nos sobre um dilema que estavam vivendo. Nos idos do século XVIII, os negros resolveram fazer a sua igreja, com devoção à Nossa Senhora do Rosário. Na cidade, já existia a Igreja de São José - freqüentada pelos brancos. Segundo investigaram, faltaram recursos aos negros para a conclusão das obras de seu templo. Como a localização da Igreja do Rosário era em lote mais central - e que atenderia melhor ao interesse da elite dominante (os brancos) -, foi feita uma barganha. Os negros se satisfizeram com uma troca: cederam seu prédio, recebendo para si a Igreja de São José. Para adaptá-la à sua invocação, promoveram uma repintura. Tudo isto foi investigado, a partir da constatação feita pelos restauradores que, limpando uma pequena área da pintura, perceberam que havia outro painel em camada anterior de tinta. Logo verificaram que haviam transformado aquele templo. Puderam identificar alterações no forro da nave, forro da capela-mor e painéis parietais. Houve, portanto, em alguma época, mudança de  devoção. Jáder, Delmari Angela Ribeiro e Pedro Gaeta tinham uma tarefa bem complicada para empreitar. Decidir por São José ou por Nossa Senhora do Rosário?


Naquele impasse, o que o intrigava e tornava difícil a decisão, contou-nos Jader, era a dúvida entre resgatar a pintura anterior ou restaurar só o desenho externo, esquecendo o do fundo. A fé remove montanhas, mas seu trabalho é científico, artístico, histórico, cultural e sobretudo sociológico. Ele não poderá promover nenhuma remoção nas camadas de tinta, pois a alteração poderia ser correta sob o prisma cultural, mas seria  religiosamente profana. Qualquer decisão que venha a tomar será descobrir um santo para cobrir o outro. Dogma de fé ou dúvidas culturais?


Uma coisa lhe parecia prudente. Aguardar recursos tecnológicos que permitissem fotografar a camada de trás, sem ter que remover a camada externa de tinta, para se ter o raio-X do painel recoberto. Já estão testando um equipamento do tipo ultravioleta, que será capaz dessa façanha. Assim, coletando sua imagem, poderão resgatar a memória anterior. Essa turma tem desafios muito sérios.


O Fabiano nos mostrou, nas pinturas da parede da Igreja São José, os temas orientais (por exemplo, as casinhas estilo “pagode chinês”), que eram inspirados em mobiliários e utensílios – pratos, móveis, tapetes etc. –, daí a cor vermelha, um elemento chinês que aparece fortemente em nossas igrejas antigas. Outra influência nos painéis de nossas igrejas inspirava-se nas estampas vindas da Europa, nos séculos XVII e XVIII. Os artistas da época reproduziam seus desenhos, tirados de santinhos (especialmente alemães, pois já eram muito evoluídos em impressões gráficas).


Observar e escutar é puro aprendizado nessa viagem. Contaram-nos a história de um escravo que defendeu, de um assalto, uma carga preciosa de um capitão daquela região. Como recompensa por sua fidelidade, recebeu o direito de que os negros pudessem transpor a área do coro, em cujo limite eram contidos, e desde então puderam se aproximar do altar no momento da liturgia da missa. Daí em diante, foi diminuindo a discriminação racial aos negros daquela comunidade.


Giovani de Oliveira Reis, outro morador daquela cidade, pediu-me que não me esquecesse de mandar uma cópia do vídeo que estávamos gerando durante a viagem. Aproveito para reforçar a importância da tese de que só se gere imagens do local para vendê-lo como destino turístico, se suas condições para receber o turismo e seus atrativos estiverem convenientemente preparados para receber a demanda decorrente.


No entanto, como estratégia de planejamento, um documentário (como o que estamos fazendo) pode contribuir junto à população,  conscientizando e alertando sobre as possibilidades do mercado turístico para a região. Creio que ele possa ser utilizado como ferramenta na construção deste mercado. Além, é claro, de reforçar o sentimento de auto-estima, cidadania e orgulho de raízes das comunidades envolvidas. Com esse entendimento, espero que tenhamos à mão um eficiente instrumento para envolver a população que, motivada, será mais facilmente mobilizada para o planejamento do setor.


A caminho do Serro, já havia um convite agendado. Numa pequena vila que tratam como Mato Grosso, mas que tem o nome oficial de Deputado Augusto Clementino, o Clube do Cavalo (reparem bem a sua reiterada presença em todo o interior mineiro) estaria nos oferecendo um churrasco. O local, Sítio Riacho das Pedras, propriedade do William Gomes, apresentava excepcionais condições para um pouso rural. A casa com muitos quartos, uma cascata de água no quintal, junto a um galpão com churrasqueira, completavam o cenário ideal para o receptivo. Ainda mais que essa é uma vontade do proprietário, que pretende transformar seu sítio em pousada.


Nosso grupo já contava com a companhia do Leonardo Clementino, que iniciava a côrte do município do Serro, onde havia preparado nossa recepção. Ficaríamos hospedados no hotel da sua família. Ele providenciou a apresentação de grupos folclóricos da região, serenata na praça e todo um aparato social. Em nosso bate-papo estrada afora, Leonardo me contava dos encantos daquela região. Dizia de sua relação com um local chamado Capivari – um povoado pertencente ao Serro, com um conjunto de pedras e águas que formavam um complexo natural dos mais bonitos do mundo. As cachoeiras eram tantas que algumas ainda eram “virgens”, dizia-nos entusiasticamente. Ele tem um projeto de alocar recursos do Ecoturismo para melhoria da condição de vida na comunidade. O pico do Itambé, visto de lá, conta com um dos mais belos ângulos a ser apreciado. Sua escalada já é um possível produto turístico a se operar na região.


Naquela prosa, uma declaração foi estimulante, especialmente por vir de uma pessoa esclarecida e que vive do trade  turístico como o Leandro. Dizia ele que nossa Expedição marcava uma época. No futuro, as pessoas diriam: “antes e depois da Spix e Martius - 1999”. Aumentava nossa responsabilidade com tais palavras estimulantes que, espero, venhamos a merecê-las.


Outra revelação estimulante foi o conhecimento que tivemos de um projeto do IEF, implementado pela Regional Diamantina, que visa a orientar as comunidades sobre o manejo sustentável e a melhoria de suas produções de sustento agrícola, tendo por meta a preservação das áreas de florestas na região. A preocupação é evitar abates clandestinos de árvores, destinadas ilegalmente à produção de carvão, de estacas de cercas etc. Não mais do que 05 km antes, havíamos descoberto um forno clandestino de produção de carvão. Com o GPS, “cravamos” aquele ponto para levar uma denúncia ao IEF.


Um dos benefícios de uma viagem ecoturística está justamente no papel fiscalizador e conscientizador que se pode efetuar em seu percurso. Afinal, a “galera” costuma passar por lugares nem sempre freqüentados pela ação fiscalizadora. É por isso mesmo que os contraventores adotam esses alvos para seus ataques. Ecoturismo deve ter também este compromisso de ação fiscal como missão.


Já avistávamos o arraial onde seríamos brindados com “aquele” churrasco. Nesse momento, passávamos a observar, no alto da serra próxima a Mato Grosso (do Serro), uma capelinha e várias casinhas. Soube que, no segundo Domingo de julho, por ocasião do jubileu, é que ocupam a vila, que passa o resto do ano vazia, como se fosse uma cidade fantasma.


Eis aí mais um produto esotérico e místico do caminho. Existem peregrinos e penitentes que procedem de várias regiões, pagando promessas e buscando crescimento espiritual. Não temos muito o que inventar nesse caminho do turismo religioso. É só identificar o santo de sua fé, verificar o local em que ocorra o jubileu que o homenageia, ou mesmo as festas religiosas, procissões etc., ajustar o seu calendário e ... “pé na estrada”. Todo mundo vai encontrar a luz, sentido, metas, festas e desfrutar das diversidades turísticas na Estrada Real.


Explorando ainda meu cicerone, Leonardo (filho da famosa Dona Lucinha, que tem uma rede de restaurantes em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Miami), provoquei-o a me informar sobre a aceitação da nossa culinária no exterior. Ele, então, contou que, recentemente, no Festival de Culinária Internacional, em Miami, havia um limite de reservas para 2000 participantes, e apareceram 5.000. Não é preciso falar mais nada. Esse é outro grande motivo para que venham provar as iguarias da Estrada Real.


Falando em comida, nossa parada no sítio Riacho das Pedras foi farta. Farta, também, em congraçamento entre o pessoal do Clube do Cavalo e nossos companheiros, os “heróicos caminhantes”, que bravamente deixavam suas pegadas nas trilhas e que já haviam vencido a marca de 300 km a pé. Relaxamos um pouco, naquele cocktail de endorfina, churrasco e salada de verduras colhidas na horta, pinga (presença sempre constante nas paradas) e energia de entrosamento grupal.


Os “rapeleiros” Helinho e Pepe Smith não hesitaram e lançaram cordas na cachoeira do Riacho das Pedras e puseram-se a descê-la, mais de uma vez. Era o aperitivo para acabar de vencer as quatro horas que restavam de jornada à frente, naquele dia.


No percurso restante, engrossaram nossa fileira os cavaleiros com o presidente do Clube do Cavalo do Serro, transformando nossa tropa em, quase, um pelotão de companhia. Era como uma bola de neve. Saímos com vinte e poucas pessoas e já somávamos 60, ou mais. Um companheirão neste trajeto foi o Sr. José Dutra, ex-coletor da região, que já vinha colecionando, há muitos anos, tudo que se relacionasse com o material dos tropeiros. Contou-nos que já possuía um museu particular com mais de 400 peças raras. [2] Tinha coisas curiosas, como uma “testeira” usada na égua madrinha, que era toda filigranada em prata, com o retrato da Princesa Isabel, fundido em relevo no centro da “peça”. Era um expert em assuntos e histórias de tropeiros. Contador de casos, divertiu-me com suas memórias dos “tempos dos cabarés” de Belo Horizonte. Dizia-se o “maior pé-de-valsa” dos anos 30 e 40, sempre com sapatos de verniz brilhante e de “bico fino”. “Fazia o maior sucesso!”. Bom observador que era, falou da sua preocupação com o uso de bernicidas e carrapaticidas, cuja utilização ele compreendia como responsável pelo extermínio dos pássaros, que se alimentavam das larvas e carrapatos no dorso dos animais “tratados” e soltos nos pastos. As maiores vítimas são os pássaros pretos e os anus, que estão sendo extintos, eliminados por intoxicação desses venenos.


No Serro, todos os sinos saudaram a chegada da Expedição. O povo, que ainda não estava na praça, corria a abrir janelas, e surgia nas sacadas dos antigos casarões, fazendo coro com os cavaleiros que conosco desciam as ruas, todos cantando o hino da cidade. A emoção com que entoavam aquela bela canção deixava claro o quanto amavam sua terra. Era uma comovente celebração. Fui tomado de grande emoção e chorei muito, embalado pela música, pelos acenos, pela alegria das crianças que corriam a nos acompanhar. Ao som das ferraduras dos animais repercutindo no antigo calçamento da cidade, chegamos à praça da matriz de São José, onde estavam centenas de pessoas a nos saudar. Haja coração!


Como sempre ocorria nas cidades pelas quais passávamos, eu era o orador da turma, cabendo-me a função de informar o intuito de nossa Expedição.
Emocionado com “aquela” recepção, não consegui disfarçar um nó na garganta e engasguei muito naquele momento. O que percebi claramente é que muito mais tínhamos a agradecer do que a oferecer. Saímos de Ouro Preto pensando em contribuir um pouco com algum conhecimento de cada um, mas cristalizou-se para mim, naquele momento, que muito mais tínhamos a aprender do que a ensinar. O prefeito Adelmo Lessa deu-nos as boas-vindas e, junto com o Secretário de Turismo, Danilo Arnaldo, e o Presidente da Câmara, Pedro Simões, ofereceu seu apoio. Fomos para o hotel, depois de assistir a apresentações folclóricas da festa de Congo, como o ritual de trançar as fitas e ouvir o coral. O Hotel Itacolomi, do Leonardo, e o jantar que a família ofereceu em seu restaurante tinham o selo de qualidade “Dona Lucinha”. Nota 10! O Sr. Marcílio, pai do Leonardo, foi também um diplomata para nos receber e, junto com o filho, ofereceu-nos seu outro hotel (Vila do Príncipe), caso precisássemos de mais leitos.


O Serro tem três séculos de história. Seu patrimônio histórico conta com diversas igrejas e sobrados que celebram o colonial e o Barroco Mineiro.


A região de Serro Frio já se chamou Arraial das Lavras Velhas, depois, Vila do Príncipe e, finalmente, Serro. Diamantina, Guanhães e muitos municípios da região já fizeram parte daquela comarca.


O Pico do Itambé localiza-se uma parte no Serro e outra, em Santo Antônio do Itambé. Seu cume está a 2.002 metros de altitude.


[3]Existem, na região, algumas cachoeiras: Lageado, Moinho da Esteira, Malheiros, Cascatinha, Carijó, Moinho. Devemos torcer para que a manutenção dessa riqueza hídrica conte com a iniciativa de projetos na área de saneamento e lixo. Essas providências, que devem partir do poder público, é que irão garantir o sucesso do turismo. Na verdade, ainda mais do que isso, é questão de sobrevivência do destino da terra e das futuras gerações. Esta é mais uma luta que os ecoturistas podem empreender, aliada ao interesse de lazer, para, assim, mantermos a soberania nacional e independência de nossas fontes de recursos naturais


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[1] Duas curiosidades em suas casas: Dona Mariinha decorou as paredes de sua casa com latinhas de sardinha e de goiabada. Chamava a atenção a limpeza e o polimento daqueles adornos. As variadas cores das pinturas de suas paredes e tetos eram um toque diferente e de bom gosto, embora em estilo bem próprio. Na casa da Dona Marilac, enquanto me deliciava com um mingau de fubá que ela ofereceu para o desjejum, observava o “luxo” de seu fogão de lenha. Fazia parte dele uma saliência em alvenaria, a certa altura do borralho (lugar onde se apóia a lenha que aquece as trempes), para que se possa aquecer os pés, ao se sentar ali. Geralmente, os gatos das fazendas dormem no borralho. Eles não são bobos nem nada. Nem Dona Marilac.

[2] No curso do projeto de Planejamento do Ecoturismo na Estrada Real, consegui intermediar a compra desse acervo pela Prefeitura de Itabira, com o objetivo de fundar o eco-museu do tropeiro em Itapanhoacanga, que passará a tê-lo como atração. Aguardem!

[3] O Pico do Itambé foi um dos locais visitados por Spix e Martius. Era intenção do nosso projeto ir até o seu topo para, simbolicamente, lançarmos uma estação de pesquisas que seria um observatório monitorado pela FUNIVALE. A importância daquela serra, hoje APA das Águas Vertentes, está no fato de que ali nascem os rios Jequitinhonha e Doce. Não tendo sido possível o lançamento da pedra-fundamental da Estação com nossa ida, pois o tempo que nos restava de viagem tornava-se muito curto, estudamos a possibilidade de um deslocamento até lá de helicóptero. No entanto, não conseguimos. Dando asas à imaginação, surgiu a chance de sobrevoarmos o pico em dois ultraleves. O nosso objetivo era chamar a atenção para aquela área, sensibilizando a opinião pública, para que as autoridades demarquem definitivamente aquela APA. Chegamos a nos preparar para um lançamento simbólico da pedra de fundação. O propósito era filmar seu arremesso sobre o cume do Itambé, a bordo de um ultraleve, pois não teríamos como aterrissar por lá. No entanto, como nada disso foi possível, e o turismo é sonho, reproduzo aqui o texto que Evandro, Pucu e eu  chegamos a redigir para ser gravado na pedra, cuja ação cinematográfica poderia repercutir, quando das apresentações do documentário:

“CUIDAR DAS ÁGUAS VERTENTES DO ITAMBÉ PARA A VIDA FLORESCER DOCE E JEQUITINHONHA.”

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