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Impressões de um fotógrafo - (SxM)

Lembro-me bem daquele dia 09 de julho. Duas da tarde: sobre a mesa pairavam uma tesoura, durex, um rebobinador, duas centenas de bobinas vazias e quatro latas de filmes. Precisava rebobinar aquilo tudo; trabalho que merece cuidado, atenção e requer tempo. Dali saíram as mais de 80 bobinas de filmes a serem utilizadas por Ted Cross [1] e por mim, no misterioso desafio de conseguir fazer o registro fotográfico da ousada Expedição Spix & Martius - 1999. Mal podia esperar... Já no dia dez, o relógio continuava seu tratado de carrasco. Todos já apresentados, a troca de idéias e de 'projetos' para a jornada parecia infinita. A simbiose ali começada tende a ser infinita. Agradeci a Deus por conhecer almas tal iluminadas de boa esperança, felicidade, fé no homem, na Terra/terra e um estampado amor no/pelo viver.  


Era tarde, e a euforia não permitia o sono; a consciência pedia para deitar, a cabeça vagava desapercebida do que viria nos próximos 22 dias. Na minha arrogante forma de humano, imaginava que as possibilidades infinitas de fotos poderiam ser facilmente contornadas. Era só usar a iludida razão. Reles mortal. Conferi filme por filme, cada peça do equipamento, tudo aos olhos do pajé que, como todo índio deslumbrando-se com os supérfluos dos kraís, queria saber para que tanta perda de tempo com algo que já havia sido feito.


Porém, foi quando descobri que não tinha cobertor, pois não o levara; que aquela 'coisa', que naquele momento fervilhava em nossos castigados neurônios, seria muito mais que uma expedição. E foi...


Carregar mais de dez quilos de equipamento, endorfinar e desendorfinar, sofrer por tantas fotos que ficaram para trás (maldito carrasco), amar os amigos que reencontro na eternidade de minhas vidas, lições...


O 'infinito controlável' que era esperado se transformou na flagelante maldição de não me ser permitida a escolha da foto. Minha lente era escolhida, as imagens lhe eram impostas. Meu corpo tornou-se em mero coadjuvante no ato de carregar o equipamento e clicar. Como poderia eu desafiar a infinita Minas com seu infinito e divino Povo? Pobre mente de um mortal... Para cada centímetro percorrido pelos olhos saltavam fotos como água em uma cachoeira, oxigênio de uma árvore, como o brilho da alma nos olhos do Povo mineiro. Não houve como ao menos iniciar meu desafio de racionalizar Deus.


Foram 70 bobinas de filmes transformadas em 2.520 fotos. Igrejas, capelas, cemitérios, velhos e velhas, magos e feiticeiras, druidas e ermitões, crianças (supremas), homens, mulheres, casas, ruínas, fazendas, cruzeiros, chafarizes, pontes, pedras pintadas, pedras de morada, pássaros, mulas, cavalos, 'casca' de capivara, de cobra, fornos, árvores (queimadas ou não), cachaça, torresmo, bicho-de-pé, santos e mais, muito, muito mais... Ufa! Que viagem...


A conclusão: potencial. Esta foi a palavra, dentre inúmeras, que escolhi para definir o caminho de Spix & Martius. O trabalho realizado pela equipe que reconstituiu a trajetória expedicionária tem como grande mérito comprovar esse potencial - palavra pequena, mas com a característica de dar poder a quem a carrega. Basta saber usar.


Visionários e empreendedores devem dar especial atenção a esse potencial, que vai do turístico-ecológico, simbiótico, de pesquisa histórico-acadêmica, de brasilidade, ao tesouro maior do percurso, que é Povo de Minas, eterno aspirado ao crescimento e fortalecimento da alma por um mundo melhor.


Cê tá pensando que berimbau é gaita? Selva! Tá pensando que eu sou seu tio? Gaaloôô! Geraaldoo! (36) Bóra, geenti! Viva o Brasil! Viva Minas! Viva Spix & Martius!


Deus seja louvado.


Texto de  André Fossati - Diretor da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de Minas Gerais (ARFOC-MG) e coordenador do Departamento de Imagem da FUNIVALE (Universidade Livre, Experimental e Comunitária do Vale do Jequitinhonha - www. funivale.org.br).


[1] O autor se refere a Ronildo Araújo Machado, turismólogo que acompanhou a Expedição e autor do guia que acompanha este livro (Nota das Organizadoras).


(36) O autor está se referindo ao capataz da Tropa Serrana, que acompanhou a Expedição (Nota das Organizadoras). Vale conferir o poema de Geraldo Luiz Felício, Um poeta a caminho (de Diamantina), que se encontra no capítulo 'Caminhos Poéticos' deste livro.



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