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Impressões de um veterinário - (SxM)

As grandes plantações de eucalipto me fizeram sentir agonia; não tinha nada para ser observado naqueles “desertos verdes”, não havia trocas. As relações estreitas que existem entre o animal e o vegetal, quando se observa uma mata heterogênea com espécies nativas, constituem algo fascinante: as aves controlam os insetos que sugam a seiva e comem as folhas dos vegetais; propagam suas sementes, adubam o solo ao seu redor. Em troca, os vegetais lhes fornecem  frutos, material para confecção de  ninhos e abrigos seguros contra as intempéries. O desmatamento  faz com que haja uma baixa significativa nas populações de animais silvestres, dentre elas, as de aves, favorecendo  o aumento da população de insetos. A substituição da mata nativa por uma homogênea, com espécie alienígena, como é o caso dos eucaliptais,  além de empobrecer o solo, acabam com as  populações anteriormente ali existentes (insetos, aves, mamíferos, peixes, etc).


A passagem nos eucaliptais me fez lembrar as palavras de Ana Maria Primavesi, autora do livro Manejo Ecológico do Solo: se o homem continuar agindo como um parasita, terá o fim de todo parasita, sua auto destruição, mas se ele se comportar como parte de um todo, será preservado para manter o equilíbrio.


A Expedição Spix & Martius - 1999 me mostrou um Estado de Minas Gerais que eu, particularmente, não conhecia. Uma terra que, apesar de toda devastação sofrida pela mineração e agropecuária, ainda possui uma beleza natural imensa. Beleza essa que me levou a refletir muito sobre esta vida urbana e sedentária que levamos. Seus riachos cristalinos, a serra do Espinhaço, grutas, canyons, reservas naturais, cachoeiras belíssimas, fazendas com seus históricos casarões, com estilo arquitetônico de difícil compreensão, para um leigo como eu, e todas as coisas gostosas do interior: quintais, currais, açudes, plantios, 'galinhada' solta ciscando no chão, barulho de água, cheiro do mato, galo cantando, cigarro de palha, a palha do chapéu, a falta de pressa das pessoas que passam na estrada de chão... Um povo simples e hospitaleiro, sedento de mostrar ao resto do Brasil as belezas de sua terra, as delícias que sua arte culinária pode extrair do milho, da cana, da mandioca, do leite e da carne.


Ingressei na Expedição como visitante, para ficar três dias. Fiquei dez. Tinha interesse em estudar a avifauna, principalmente as espécies que, há anos, reproduzo em cativeiro, como o Trinca-ferro (Saltator s. similis), Coleirinha (Sporophila caerulescens), Tiê-sangue (Ramphocelus bresilius dorsalis), Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris), Sabiá-da-mata (Tudus fumigatus), Bicudo (Orysoborus maximiliani), Curió (Orysoborus angolensis). Achei que era uma boa oportunidade para aprender algo sobre essas aves em seu habitat natural, pois esse conhecimento será de grande valia em futuros projetos de soltura e repovoamento. Conheci o biólogo Humberto Marques. Durante dez dias, no trecho de Barão de Cocais a Conceição do Mato Dentro, trabalhamos juntos, somando nossos conhecimentos e equipamentos, para fazermos um levantamento das espécies de aves no percurso. Registramos mais de 200 espécies. A observação se limitou à beira da estrada, em áreas descampadas, pois não tivemos oportunidade de penetrar mata a dentro. Nas poucas áreas de mata existentes nesse percurso, registrou-se a presença do Trinca-ferro, denunciada pelo seu canto marcante – 'bom-dia-seu-chico-ró'. O povo local chama essa ave de Chico-velho.


Parece que o desmatamento favoreceu umas poucas espécies que vivem em áreas descampadas, como é o caso do Pássaro-preto ou Melro (Gnorimopsar chopi), sempre visto em grandes bandos, de aproximadamente cinqüenta indivíduos, dando um verdadeiro show de cantoria, pousados nas palmeiras. É a espécie de ave que mais marcou presença durante toda a viagem, seguida pelo Graveteiro (Phacellodomus rufifrons) – pássaro insetívoro –, de difícil visualização, mas que denuncia sua forte ocorrência na região devido às centenas de ninhos volumosos e de complicada arquitetura, confeccionados de gravetos, pendurados na ponta dos galhos a poucos metros do chão.


Esperava encontrar um grande número de Coleirinhas (Sporophila caerulescens), mas só visualizamos seu parente, o Coleiro-baiano (Sporophila nigricolis). Na Fazenda João Congo, onde pernoitamos e descansamos por um dia, observei vinte e cinco espécies, das quais destaco as seguintes: Pintassilgo (Carduelis magellanicus), Japacamin (Donacobius atrcapillus), Sabiá-do-banhado (Embernagra platensis), Olho-de-fogo, Pomba-trocal (Columba speciosa).


A ave de rapina de maior ocorrência era o Gavião-carrapateiro (Milvago chimachima). Durante todo o percurso, as aves que mais me chamaram a atenção, devido à sua beleza e comportamento, foram: o Japu (Psarocolius decumanus maculosus), conhecido em Minas Gerais como Fura-banana, é um dos maiores passeriformes do Brasil, medindo entre 34-45 cm; a Tietinga (Cissopis leveriana), também conhecida por Pega, Sabiá-tinga, Sanhaço-tinga ou Pintassilgo-do-mato-virgem, inconfundível tanto no aspecto como no colorido branco e preto, íris amarela, medindo aproximadamente 29 cm e apresentando canto estridente ('spix-spix'); Japacanim (Donacobius atricapillus), com seus gritos fortíssimos, também conhecido como Batuquita, Sabiá-do-brejo, Assobia-cachorro, Gaturamo-do-brejo ou Casaca-de-couro, mede aproximadamente 23 cm, apresenta cauda bastante longa e, assim como esta, suas asas revelam marcantes sinais brancos, que podem ser observados quando se abrem, e têm uma área de pele nua e amarela, ao lado do pescoço; Tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa), 42 cm, incluindo a cauda bifurcada e longa, lado superior cinzento, asas e cauda negra, garganta branca, contornada por uma faixa castanha. Essa ave caça insetos, sobrevoando o banhado a baixa altura. Observamos também a Viuvinha (Colonia colonus), conhecida em Minas Gerais como 'Freirinha-da-serra'. É inconfundível. Tem negro boné e uropígio esbranquiçado, mede cerca de 13 cm, tendo duas penas prolongadas na cauda (retrizes medianas) que, no macho, atinge 10 cm e, na fêmea, apenas 02 cm.


Texto de Carlos Alberto de Carvalho Pinto - veterinário.

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