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Estrada Real

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Impressões de uma jornalista - (SxM)

Depois de 6 horas de viagem, cheguei a um lugarejo chamado Itapanhoacanga, município de Alvorada de Minas, onde juntei-me à Expedição Spix e Martius - 1999. Era uma segunda-feira de noite clara e enluarada. Todos foram à rua receber aquele estranho grupo que vinha de tão longe, uns a cavalo, outros a pé. Assim como Dom Quixote, pareciam heróis, prontos a resgatar Itapanhoacanga do esquecimento. Naquela noite, ela reinava. Mesmo ausente dos mapas, fora a escolhida. E, por isso, todos estavam ali para conhecer seus heróis e acolhê-los em suas casas.


Fui recebida por Lídia, uma jovem muito simpática, moradora do lugar. Generosamente, abriu a porta de sua casa e ofereceu-me um quarto e banho quente. Sentia-me cansada da viagem. Um tipo de cansaço que não viria a sentir durante toda a Expedição. Recolhi-me cedo, para descansar e preparar-me para o meu primeiro dia de caminhada. Eu não sabia o que significaria para o meu corpo 30 km a pé, e também não sabia o que eu poderia esperar de descanso para os próximos dias. Por isso, agradeci muito aquele pouso tranqüilo.


Terça-feira: de Itapanhoacanga ao Serro. Aproximadamente 30 km. Fiz a primeira refeição na escola da cidade com os membros da Expedição. Comi mamão e tomei café com biscoito de polvilho. Coloquei a bagagem no caminhão de apoio e preparei a matula de viagem: 2 bananas, 2 laranjas, granola, canivete, capa de chuva, papel higiênico e água. Nos próximos dias, eu acrescentaria um par de chinelos e uma canga para descansar na hora da sesta.


Assim como os cavaleiros, os caminhantes tinham um jeito característico de vestir. Botas de trekking, meias confortáveis, calça tactell, blusa de algodão (de preferência branca, de mangas compridas), óculos escuros, chapéu. Pronto, sentia-me guarnecida. Porém, ainda faltava uma coisa: o cajado. Os caminhantes mais experientes diziam que eu não me preocupasse, pois meu cajado já existia. Mas ele é que me encontraria. Atenta aos galhos na beira da estrada, fiz várias tentativas que de nada adiantaram; continuava sem cajado...


A primeira parte da caminhada transcorreu tranqüila, com poucas subidas e temperatura agradável. O que mais chamou minha atenção foi o barulho de moto-serra num trecho do caminho, uma contenção muito antiga de blocos de pedra em uma das pontes por onde passamos e a visão magnífica de Capelinha, a cidade fantasma: no alto de um penhasco, uma igreja e, à sua frente, uma fileira de casinhas. Ninguém vive em Capelinha. O lugar só é frequentado na Festa do Jubileu, que acontece uma vez ao ano.


Almoçamos num lugar conhecido como Mato Grosso. Fomos recebidos em uma bela fazenda à beira de um riacho com uma queda d’água bastante convidativa aos membros da equipe, amantes de esportes radicais que aproveitaram para exercitar suas habilidades.


Escoltados por um guia, seguimos nosso caminho por uma trilha. As trilhas nos reservam os trechos mais aprazíveis. Essa era uma Estrada Real. Com cercas de um lado e de outro respeitando o caminho de animais e caminhantes, a estrada estava quase toda tomada por grama. Simpáticas casinhas surgiam, vez ou outra. As roupas no varal, a fumaça nas chaminés, o burburinho de crianças e o latido de cães sinalizavam vida naquelas casas.


Em um trecho de subida forte, apoiei-me em um cajado encontrado ali mesmo. A intenção era abandoná-lo ao final da subida, pois não correspondia a imagem de cajado que eu esperava ter. Sem me dar conta, tornou-se o meu primeiro cajado. Foi-me útil e companheiro nos dias que se seguiram.


À frente, encontramos uma casinha mimosa com um imenso gramado, uma parada irresistível. A dona da casa ofereceu-nos água fresca e laranjas do pomar. A casa esmerava em capricho e cuidado.

Eram as costuras trabalhadas,
os desfiados, os crivos pacientes.
A reforma do velho, o aproveitamento dos retalhos.
Os bordados caprichados, os remendos
instituídos, os cerzidos pacientes...
Tudo economizado, aproveitado.
(Cora Coralina)


A anfitriã espantou-se ao nos reconhecer. Tinha visto uma reportagem na TV e estava desejosa de ver a chegada do grupo no Serro. Não poderia imaginar que passaríamos em sua casa.


Prosseguimos e chegamos em um lugarejo chamado Ribeirão. Logo depois, rompemos a serra que, há muito, vínhamos subindo. Um trecho no meio da mata, de onde se avistava todo o vale. A essa altura, a lua já brilhava no céu. Ao cair da noite, alcançamos a estrada. O grupo tinha se dispersado. Uns mais à frente, outros atrás. Por um bom tempo, a lua foi a minha única companhia.


No Serro, as pessoas nas janelas, ao perceberem nossa indecisão, indicavam o caminho que dava na praça, onde uma festa nos aguardava. A praça estava cheia. Discursos emocionados... solenidade... festa... e uma boa noite de sono.


Próxima parada: Três Barras. Dali para frente, passaríamos por lugares de rara beleza. Dia quente, de sol forte. Não desprezávamos nenhuma sombra acolhedora. Por sorte, foram muitas. Em uma parada, ganhei umas laranjas conhecidas pelo nome de cravina. De um alaranjado intenso, quase vermelho, muitas sementes e muito caldo, cravina é a laranja mais saborosa que conheço. Tão presente na minha infância, a cravina é hoje difícil de se encontrar.


Almoçamos em Três Barras, um lugar agradável com uma igrejinha do século 18 e uma praia de areias brancas. Um grupo decidiu pernoitar ali mesmo, enquanto outro seguiu viagem. Fiquei e tratei das minhas bolhas com ajuda de uma caminhante mais experiente – Norma. Dormimos na casa de Dona Flor de Maio. No dia seguinte, levantamos bem cedo e, acompanhados pelo marido de Dona Flor, um bom conhecedor do lugar, fizemos o trecho mais bonito de toda a caminhada.


Uma trilha nos levou direto a São Gonçalo do Rio das Pedras, sem passar por Milho Verde, apesar de avistá-lo a quase todo o tempo. Um trecho praticamente plano, no alto de um chapadão pedregoso com muitos cactos, canela-de-ema, arnica da serra, flores azuis e sempre-vivas.


Passamos por trechos calçados, uma ponte de pedra e outros vestígios do tempo dos escravos. O mais surpreendente: o campo de sempre-vivas. Nele, quase tropeçamos numa cobra cor de capim que, respeitosamente esperamos que seguisse seu caminho, para então, seguirmos o nosso.


São Gonçalo do Rio das Pedras, um dos lugares de que mais gosto nesse mundão de Deus.

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Êta vida besta, meu Deus.

(Carlos Drummond de Andrade)


Em São Gonçalo, a vida é bela. Bem mineira. Com tradições seculares, lindas igrejinhas, lindas casinhas, lindas pessoas e muitas idéias criativas que revigoram o lugar. Chegamos cedo e aproveitamos bem o dia. Aluguei um quarto numa casinha com banho quente e roupa de cama perfumada. Apesar das pousadas hospitaleiras, preferi esse cantinho mais sossegado.


Nesse dia, não sei como, perdi o meu cajado. Só então, me dei conta do quanto eu gostava dele. Fui várias vezes ao Bar do Ademil para perguntar se por acaso alguém o havia encontrado. E nada. Até que o senhor Lúcio Ribeiro, que morava perto dali, disse-me: 'Deixa estar, menina!'. Foi em casa e voltou com um cajado que ele lavou, cerrou, lixou e me presenteou. Foi assim que meu segundo cajado me encontrou.


Penúltimo dia. Depois de um farto café no Bar do Pescoço, que, na noite anterior, tocou forró de qualidade até altas horas, prosseguimos.


Cruzamos o Jequitinhonha, passamos por Vau, almoçamos numa simpática fazenda, fizemos a sesta sob a sombra de mangueiras, conhecemos as ruínas da sede da Fazenda Palmital, onde Spix e Martius pernoitaram, e acampamos na fazenda Bela Vista. Noite de fogueira e festa de tropeiro. Soberana, a lua iluminou nosso acampamento toda a noite. Levantamos ainda com estrelas. Recolhemos as barracas e pé na estrada.


A chegada em Diamantina foi festiva, como não poderia deixar de ser. Em frente ao mercado, reuniu-se toda a tropa. Apresentação de bandas... caboclinhos... homenagens... discursos... despedidas...


Algumas bolhas no pé e uma imensa vontade de continuar. Caminhar é um passeio visceral. É como se tocássemos a paisagem com todos os sentidos. Deve-se guardar bem nos olhos e levar um pouco dentro da gente. Como Érico Veríssimo, 'A minha maior ambição é ser vento e geografia.'


Texto de Elisa Resende - jornalista e videomaker.

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