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Impressões de um arqueólogo - (SxM)

A Expedição já rompia caminho há dias, quando iniciei minha viagem. Foi em Morro do Pilar o meu ponto de partida. Lamentavelmente, perdi um grande trecho, significativo na história mineira, mas certamente ele será referenciado por outros colegas expedicionários.


1.Morro do Pilar

Em Morro do Pilar, uma grande comitiva aguardava a chegada da Expedição. Acontecia ali a Festa do Peão, com rodeios e shows musicais, e em seus intervalos a Spix & Martius era anunciada, juntamente com a Comitiva do Intendente Câmara, que a ela se agregou. Ainda nessa noite estabelecemos os primeiros contatos com a municipalidade, para identificarmos os valores culturais locais e para também articularmos uma subseqüente visita a eles.


Sabíamos da existência de testemunhos históricos acerca de antigas minerações, principalmente da Real Fábrica de Ferro. Inegavelmente, a comunidade orgulha-se desse empreendimento, ao reconhecê-la enquanto patrimônio cultural do município. Vistoriamos as ruínas da fábrica na manhã seguinte.


A ocupação histórica da região de Morro do Pilar deu-se bem no início do século 18, sendo o ouro o principal motivador desse processo. Os primeiros movimentos migratórios registrados na região deram-se aproximadamente em 1702-03, quando veios auríferos foram descobertos por Gaspar Soares, que ali exerceu a atividade de mineração até o ano de 1745. A cobiça pelo ouro, explorado em abundância, atraiu contigentes de outros mineradores que, juntamente com os seus familiares e outros aventureiros, consolidaram o primeiro núcleo urbano, bem próximo à área de lavras, ou seja, nos platôs. Nesse local foram implantadas as primeiras casas, a capela, os arruamentos e demais serviços urbanos. Tão logo crescia a atividade aurífera, cresciam também outras necessidades.  Desse modo, ainda na primeira metade do século 18, Manuel Ferreira da Câmara Bittencourt de Sá, o Intendente Câmara, ilustre filho da região, com conhecimentos em mineração, levou a cabo o preito de instalar naquelas paragens uma fábrica de ferro, a qual almejava ser a primeira fábrica industrial  implantada no Brasil (embora já existissem pequenas fundições, instaladas em grandes unidades rurais, principalmente para o atendimento e para o abastecimento desses núcleos). Em 1808, também se instalava, em São Paulo, a Fábrica de Ipanema, com os mesmos propósitos. Ambos eram projetos arrojados, que primavam pela produção de ferro em escala industrial. Isso demandaria um investimento de elevado orçamento e, para tal, no caso da fábrica mineira, contou-se com recursos advindos dos cofres da Coroa.


No entanto, esse pioneirismo coube ao Barão W. L. von Eschwege, com a sua fábrica, situada em Congonhas do Campo, Minas Gerais. Eschwege, além dos conhecimentos técnicos, detinha informações das outras fábricas em construção, levando-o a empreender com sucesso a Fábrica Patriótica, em 17 de dezembro de 1812, com custos bem dimensionados e reduzidos. A partir do trecho da obra Pluto Brasilensis, de Eschwege,  fica clara a acirrada disputa pela produção industrial de ferro em Minas Gerais (muito embora a técnica já havia sido introduzida pelos escravos africanos, e amplamente difundida nas fazendas mineiras):


Por ocasião da minha chegada a Minas, em 1811, era comum esse processo bárbaro de produção de ferro. A maioria dos ferreiros e grandes fazendeiros que possuíam ferrarias tinham também o seu forninho de fundição, sempre diferente um do outro, pois cada proprietário, na construção, seguia suas próprias idéias. [...] Veio me a idéia de passar a frente daqueles dois senhores e alcançar a honra de ter sido o primeiro no Brasil a produzir ferro em escala industrial. Prometi edificar uma grande usina, com tantos fornos quanto a dos suecos (em Sorocaba), exigindo apenas o capital de 10.000 cruzados, logo coberto, graças à atividade do governador. Eu próprio tomei duas ações. A usina foi construída e, em 17 de dezembro de 1812, começou a trabalhar regularmente, antes das outras duas, que não tinham ainda produzido uma libra de ferro, apesar de terem gasto já, uma, 200.000 cruzados, e a outra, 150,0000. Só em junho de 1813 começou a trabalhar a usina dos suecos, em São João do Ipanema. A de Câmara fez a sua primeira tentativa de fundição em agosto de 1818, e com o auxilio do meu mestre fundidor alemão. Não quero antecipar-me, porém , à história, tratando agora de cada uma dessas fábricas. Direi somente que,  até o ano de 1818, quando a fábrica sueca de São João do Ipanema foi transformada por von Varnhagen em uma fábrica do tipo alemão, minha usina de Congonhas produzia mais ferro do que a do Morro do Pilar e tanto quanto a de São João do Ipanema. E também, que tendo as duas primeiras custado 300.000 cruzados cada uma, as despesas com a construção da minha atingiram somente a 13.000. Além disso, havia a grande diferença de ter dado bons lucros aos proprietários, enquanto as duas outras somente produziram prejuízos consideráveis.


Independentemente dos acontecimentos históricos, o fato é que Morro do Pilar é detentora de um potencial histórico ainda insuficientemente estudado. O início e o desenvolvimento da atividade mineradora em Minas Gerais, principalmente nos séculos 18 e 19, contam com testemunhos ainda remanescentes que podem contribuir na recuperação da atividade minerária e no resgate de técnicas dantes utilizadas.


A visita aos vestígios das antigas minerações pela Expedição deu-se no dia 24 de julho de 1999. Fomos guiados por Bento José de Oliveira e Helder Aguiar, ambos funcionários da Prefeitura local, interessados na preservação desses bens culturais. Tanto o executivo municipal como a comunidade reconhecem  a importância dessas ruínas, que são elementos designativos de uma identidade do município.


Recentemente, as ruínas da sede da fábrica, hoje nos limites da cidade, passaram por um processo de revitalização. No local foi construído um monumento à memória e ao preito industrial do Intendente Câmara. Duas paredes remanescentes, em taipa de pilão (raridades em MG), foram conservadas enquanto testemunho da fábrica. Há de se registrar que, lamentavelmente, mesmo munidos de um espírito de preservação e valorização patrimonial, a obra ali realizada obliterou os demais vestígios, como outros alicerces e estruturas, que poderiam permitir um resgate da história da edificação por intermédio de uma intervenção arqueológica, já que os elementos residuais da cultura material poderiam contribuir na  elucidação de fatos históricos. Há muito mais a ser conhecido e explorado. Estruturas componentes do antigos complexos mineradores ainda resistem ao tempo, o que garantirá a reconstituição da história do local e das sucessivas atividades naquele cenário.


Não muito distante do monumento, ainda existe uma estrutura, hoje um testemunho arqueológico, onde outrora existia uma represa, que fornecia água à fundição. Afortunadamente, no momento da  nossa visita, foi flagrado o inicio da descaracterização da mesma pela construção de moradias, junto ao eixo do antigo barramento, obras que imediatamente foram suspensas pelos funcionários da Prefeitura municipal que acompanhavam a visita. Dessa estrutura restam ainda parte do barramento, destruído parcialmente pela construção das casas, e o sangradouro, cujo canal permite perceber o antigo revestimento em pranchas de braúna. Acreditamos que a Prefeitura tenha conseguido interromper a tempo o processo de descaracterização.


A área de exploração mineral, representada pelo conjunto de galerias das minas, pelos poços de decantação, mundéus, pelos canais, pelos aterros e arrimos em pedra de mão, pelos caminhos e pelos shafts horizontais, ainda apresentam-se em bom estado de conservação, o que confere ao conjunto uma boa visibilidade arqueológica no que se refere a possibilidade de se resgatar aspectos da tecnologia industrial utilizada. A maior parte das galerias (coordenadas 6694309 E e 78734904 N UTM) apresentam-se com o desenvolvimento horizontal, com dimensão em média de 2,30 m de altura por aproximadamente 03 metros de largura, sendo poucas aquelas que apresentam as suas aberturas desmoronadas ou assoreadas, de modo a comprometer um futuro estudo. Há informação de moradores de que, no interior de algumas delas, têm-se ainda vestígios de escoramentos em madeira e estaleiros em  metal. Essas antigas minas  foram registradas em ambas margens do Rio Picão, e segundo a tradição local, as galerias situadas na margem direita são anteriores. Ao que tudo indica, são do período da exploração aurífera em Minas Gerais.


O Morro de Gaspar Soares, denominação do local onde se encontram essas manifestações, vem sendo explorado desde os primeiros anos do século XVIII, tendo sido ali erguida uma capela, em 1710, de invocação a Nossa Senhora do Pilar, e o primeiro arraial, com cerca de quarenta casas. Gaspar Soares iniciou a exploração do ouro no Alto da Canga em 1704, findando essa atividade em 1743. No ano de 1740, o arraial foi transferido para o local onde se encontra a cidade de Morro do Pilar, em função da necessidade de expansão da atividade mineradora. O acidente ocorrido em 1743, nas minas do Hogó, ocasionou  a paralisação da  mineração por parte de Gaspar Soares. Por meio de uma Carta Régia, em 1808, foi criada a Fábrica de Ferro de Morro do Pilar. O Intendente Câmara iniciou a instalação da Real Fábrica de Morro do Pilar ou Fábrica do Rei. O alto do Morro da Canga ou Hogó, onde tais iniciativas tiveram o seu êxito, apresenta vestígios arqueológicos, remanescentes tanto do período do ouro como também da Real Fábrica. Pesquisas históricas e arqueológicas serão preponderantes para a identificação da cronologia dos vestígios. Os relatórios expedidos pelos técnicos da fábrica inegavelmente constituem uma importante fonte para essa identificação.


Por ocasião da nossa visita, o Prefeito municipal nos apresentou uma proposta de lei, que dispunha sobre a implantação da Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Picão, em parceria com a Vale do Rio Doce e com o Instituto Estadual de Florestas (IEF). Mantivemos contato com o Dr. Júlio, Consultor Ambiental da Prefeitura. Sugerimos, na ocasião, dentro do contexto da APA, a criação de um a área cuja finalidade destina-se à pesquisa histórica e arqueológica, ou seja, de uma unidade temática voltada à preservação das técnicas de mineração. Ressalvamos que a atividade de mineração e de fundição de ferro na região foi muito difundida no século 19; soubemos da existência de várias ruínas de antigas fundições, além das de Morro do Pilar (como nos municípios vizinhos: Serro, Conceição do Mato Dentro e Congonhas do Norte). Isso motivou a implementação, no âmbito da Superintendência de Pesquisa do IEPHA, da necessidade de se realizar um inventário dessas manifestações dos primórdios da siderurgia em Minas Gerais.


2. Conceição do Mato Dentro

Dando prosseguimento ao nosso roteiro, a próxima localidade visitada foi o município de Conceição do Mato Dentro. Lá nos aguardava uma equipe do IEPHA: Pedro Gaeta Neto, Diretor de Proteção e Memória, Delmarí Angela Ribeiro, Superintendente de Tombamento e Proteção, e Jáder Barroso Neto, restaurador. Essa equipe tinha o intuito de agregar-se à Expedição naqueles dias, para o atendimento de antigas reivindicações dos moradores no que se refere à uma avaliação do acervo cultural da região, e para o início de um trabalho de educação patrimonial. Foram vistoriadas as igrejas de Itapanhoacanga, uma delas já restaurada pelo IEPHA, e outra, a de São José, cujas obras de restauração acabam de ser iniciadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O conjunto urbano de Córregos, distrito de Conceição, mereceu uma atenção especial, o que resultou mais tarde num projeto específico, por parte do IEPHA, para a proteção de seus núcleos históricos.


Em Conceição, a Expedição foi recebida pelos moradores, que nos presentearam com uma demonstração da banda de música local e dos grupos de congadeiros. É interessante a diversidade desses grupos em Minas Gerais. Cada região apresenta as suas peculiaridades nos rituais, no vestuário e nas músicas. O Estado é rico nessas manifestações culturais, e cada vez mais devem ser envidados esforços para que se preservem tais manifestações.


Tivemos também a oportunidade de convivermos com vários moradores, compartilhando assim da história local. O município de Conceição apresenta um elevado potencial histórico, cultural e turístico. A cidade também se originou do processo exploratório do ouro, no qual participou Gaspar Soares, fundador de Morro do Pilar, que saiu de Sabará em 1701 para descobrir as riquezas de Ivituruí, antigo nome do Serro Frio. Desse grupo de bandeirantes, dois deles rumaram para o sul; Manoel Correia de Paiva e Gabriel Ponce de León. Mesmo com os constantes ataques dos índios Botocudos, esses bandeirantes continuaram com as prospecções em busca do ouro nos contrafortes da Ferrugem, Campo Grande e do Cotocori. No ano de 1702, Ponce de León ergueu a primitiva capela de Nossa Senhora da Conceição. A partir daí floresceu o povoado de Conceição do Mato Dentro. A região experimentou um período de fausto, em decorrência da abundância dos veios aurífero


Com o minguar do ouro, iniciado na segunda metade do século 18, e a decadência agravada no século seguinte, abandonou-se esses núcleos mineradores, onde a miséria já se instalava. Saint-Hilaire, ao percorrer a região, assim a descreve:


À exceção de Itambé, de todas as povoações até então vistas, nenhuma apresentava como essa tantos sintomas de decadência e miséria. Essa povoação jamais esteve certamente, na altura de Inficcionado e Catas Altas; no entanto, o tipo das casas prova que seus primeiros ocupantes gozavam de abastança. Nessa época o ouro retirava-se sem dificuldade dos terrenos próximos à povoação; as minas, porém, empobreceram, e os atuais proprietários não possuem recursos para faze-las explorar. Afastam-se sucessivamente de uma zona que não mais produz ouro e é imprópria à agricultura; o mato que cresce nas ruas de Conceição esconde quase completamente as pedras do calçamento; grande número de casas já foi abandonado, e as outras caem em ruínas.


(SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte; São Paulo: Editora Itatiaia/Edusp, 1975. p. 135.)


Atualmente, ao contrário do século 19, Conceição tornou-se um pólo cultural e turístico de grande importância no roteiro do Barroco Mineiro.


Após deixarmos a sede do município, seguimos para o distrito de Córregos. Chegamos ao anoitecer, logo após a chegada dos caminhantes. Nos organizamos na entrada da cidade, emparelhamos os nossos cavalos e adentramos no lugarejo, onde a comunidade nos aguardava no largo da igreja. Vindos do interior da igreja de Nossa Senhora Aparecida, ouvimos os primeiros acordes do Hino brasileiro, e, imediatamente, todos se puseram a cantá-lo. Em seguida proferiram-se os discursos de saudação, dos que recebiam e daqueles que chegavam. Nessas ocasiões, o Tullio conquistava a todos com a sua oratória. Após o jantar, houve um baile de confraternização. Uma vez mais comprovava-se a hospitalidade mineira.


Córregos é um núcleo remanescente do período minerador. Desse período restam poucas edificações, sobressaindo-se o Solar do Bispado, as igrejas, dentre outras construções. Apesar da perda de grande parte das edificações que ali existiam, e do precário estado de algumas outras que se encontram no largo da igreja (que se não forem tomadas medidas urgentes, certamente terão o mesmo destino das outras, ou seja, a irreversível perda), o conjunto urbano ainda mantém algumas características do período colonial. A igreja de Nossa Senhora Aparecida é, sem dúvida, o principal edifício. Recebeu esse nome em razão da lenda de que a imagem da santa apareceu no local, história similar à imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Esse templo, como vários outros existentes em território mineiro, passou por reformas ao longo dos anos. As alterações variam no gosto, no estilo e em cronologias. A igreja sofreu alterações no seu partido e na sua fachada, conforme data da reforma aposta no frontispício. Recebeu chanfros, na fachada, e sofreu descaracterização do adro, onde certamente havia um cemitério, como nas demais igrejas mineiras edificadas nesse período. No interior, podem-se perceber alterações sucessivas, principalmente na repintura da capela-mor. A primeira pintura, ou seja, a original, é percebida em superfícies onde a repintura se perdeu ou está esmaecida. O medalhão tem, na sua iconografia, a imagem de Nossa Senhora da Assunção, diferente da invocação atual. Ambas manifestações já se incorporaram ao monumento, o que vai suscitar, em qualquer intervenção de restauro que venha a ocorrer, uma discussão conceptual,  precedida também de uma ação interativa com a comunidade para o estabelecimento de parâmetros e critérios.


A outra capela, de Nossa Senhora dos Passos, situada no alto de um outeiro, domina a paisagem, e também delimita os contornos do núcleo urbano.


Marcas de um passado opulento também podem ser notadas no distrito de Córregos. Seguindo o arruamento principal, observamos estruturas de cantaria de antigos alicerces, hoje apenas arrimos para as casas edificadas posteriormente.


É relevante destacar alguns moradores, e através dos mesmos estender nossas homenagens e agradecimentos pela acolhida por ocasião da nossa visita. Agradecemos a todos, nas pessoas de Dona Marilac, pelo seu incansável trabalho em prol da comunidade e do Patrimônio Histórico, e de Dona Mariinha, pelo exemplo e dedicação à memória do lugar. Uma visita à sua casa é uma viagem ao passado, às lembranças. Sua coleção de latas, polidas constantemente, adquirem um brilho próprio, fazendo com que os mais simples objetos tomem o seu lugar no espaço e no tempo. Essa capacidade de extrair o belo das coisas simples, traduz a genialidade do artista.


3.  Itapanhoacanga

Seguindo o nosso roteiro, deixamos Córregos, em direção a Itapanhoacanga, no dia 26 de julho. No meio desse roteiro, há o distrito de Tapera, lugar agradável onde também são mantidas características de um núcleo colonial. As casas são térreas, alinhadas ao arruamento, e com muito pouca interferência. Fomos recebidos em Tapera por um grupo de cavaleiros e, em seguida, descansamos por algum tempo, antes de romper viagem. Aproveitamos para visitar a igreja de Santo Antônio do Norte, em processo de restauração, obra supervisionada pelo IEPHA (apesar de sua fachada externa estar completamente adulterada, o interior do templo apresenta belos painéis parietais). Em seguida, acompanhados por moradores locais e por nossos futuros anfitriões em Itapanhoacanga, subimos a Serra da Escadinha.


Nesse trajeto, o leito estradal corta uma densa vegetação, de exuberante beleza, conferindo ao lugar um aspecto bucólico que nos transporta ao passado. Fomos informados de que a área era também objeto de preservação ambiental. No alto da Serra da Escadinha predomina o campo rupestre, com sua vegetação típica: as Lavoisieras, os Paepalanthus, as Velósias, as Bromeliáceas, a vegetação arbustiva de Cerrado, dentre outras. Destacam-se os afloramentos rochosos em rocha quartzítica, espalhados pelas superfícies, tal qual esculturas em um grande jardim. Tais formações quase sempre apresentam abrigos, que eram utilizados pelas comunidades pretéritas. Ficamos alerta à essa possibilidade. Sem nenhuma surpresa, no primeiro abrigo visitado, deparamo-nos com manifestações pictóricas de grupos pré-históricos. Escolhemos para designar o abrigo, ainda não cadastrado, o nome de Abrigo Spix e Martius, numa dupla homenagem: aos ilustres visitantes e à Expedição. 


Trata-se de um afloramento, cuja área abrigada é de aproximadamente 25 metros de extensão (com coordenada de 659119 E e 7920030 N UTM). No interior do mesmo, em superfície rochosa, com exposição para o oeste, encontram-se os painéis de arte rupestre. São figuras geométricas, bastões, medindo cerca de 40 cm, executados na cor vermelha e dispostos em alinhamento. A técnica  utilizada foi a pintura.  Há também registros de uma outra técnica, conhecida pelos especialistas como crayonnage ou giz, na qual as figuras são executadas diretamente pelo bloco de pigmento, diferente da pintura, e que exige uma preparação da tinta. Sabemos que na região outro sítios arqueológicos já foram registrados, e mantém a tradição estilística do Planalto, definida em 1980 por pesquisadores mineiros e verificada no eixo da Serra do Espinhaço e do Cipó, região na qual ela foi mais detalhadamente estudada. O que caracteriza tal tradição é o predomínio visual e quantitativo de elementos zoomórficos, representados principalmente pela associação de peixes e veados, e também a maior utilização de figuras monocrômicas, ou seja, executadas em uma só cor. Embora, a princípio, os ínfimos elementos encontrados no Abrigo Spix e Martius não contenham todos elementos designativos da Tradição Planalto, pelo seu contexto e pelas descobertas mais adiante realizadas, podemos enquadrá-lo nessa tradição. No interior do abrigo foi observado um depósito sedimentar que permitirá sondagens arqueológicas, com vistas ao entendimento da ocupação pré-histórica na região.


O trecho que conduz à Itapanhoacanga é de uma beleza excepcional, principalmente no arrebol, quando o sol empresta o seu dourado às montanhas. Chegamos à cidade no início da noite, e uma grande multidão nos aguardava, com faixas de boas vindas que se espalhavam pelo trajeto. Era mais um momento de emoção, como muitos  nos últimos dias. Era um dia de festa para nós e para eles também. Fomos recebidos pelo Prefeito, Sr. Antônio, e em seguida foram feitas saudações de ambas as partes. Interessante frisar a importante participação da comunidade na organização do evento. Uma professora (Nídia) fez um discurso cordial, que muito nos emocionou. À noite houve barraquinhas e um animado forró. Chegaram também os jornalistas da Revista Terra que, naquela ocasião, realizariam uma cobertura jornalística da Expedição. Ficamos instalados no colégio local, onde também jantamos.  Somos gratos à população pelo acolhimento em suas residências, onde pudemos tomar banho.


Na manhã seguinte, a convite de membros da comunidade, fizemos uma visita às duas igrejas da cidade. Uma delas, a Nossa Senhora do Rosário, foi restaurada pelo IEPHA, conforme dissemos anteriormente. Encontra-se em bom estado. Também apresenta caso semelhante de repintura sobre as obras originais. A outra igreja, a de São José, é imponente, e apresenta a peculiaridade ser um ex voto, ou seja, de ser erguida como pagamento de uma promessa, conforme atesta a legenda encontrada no seu forro. Apresenta talhas de boa factura e de excepcional beleza na fachada externa, fugindo um pouco aos padrões conhecidos em outras regiões detentoras de um acervo barroco. No momento da visita, era lamentável o estado de conservação da igreja. Contudo, sabe-se que, no início do ano 2000, providências para a sua restauração foram tomadas pelo IPHAN.


4. Serro

De Itapanhoacanga fomos para o Serro. Avistamos, no alto de uma colina, um lugarejo peculiar, a vila de Mato Grosso. Soubemos tratar-se um lugar de romaria, cuja ocupação se dá apenas no momento das comemorações da chamada Festa do Santo, realizada em julho. Gostaríamos de ter ido lá, mas infelizmente tínhamos um determinado prazo para chegarmos ao nosso destino. Outro exemplar dessa  romaria existe na região. No município de Conceição do Mato Dentro, quase que em seus limites com Gouveia, existe o Cemitério do Rio do Peixe, que mantém essas mesmas características.


A chegada ao Serro novamente desafiou as nossas emoções. A comunidade preparou uma festa, com a apresentação de grupos folclóricos e de serestas. Vários discursaram, como o Prefeito, antigos tropeiros e os expedicionários. No jantar, foi-nos oferecida uma boa refeição no restaurante de D. Lucinha, hoje conhecida nacionalmente pela boa mesa mineira.


Nessa mesma noite ainda nos encontramos com a arquiteta Cristina, representante local do escritório do IPHAN, e com Maria José Simões (Zara), participante do Conselho Municipal de Cultura. Buscavam apoio do IEPHA e dos membros da Expedição para a preservação de um dos últimos remanescentes de ranchos de tropeiros, localizado em São Gonçalo, cujo proprietário insistia em descaracterizá-lo. Seria uma perda sem medida, e a nós restava apenas a luta para tentar inverter tal situação, uma vez considerado o nosso engajamento na conservação do tropeirismo em Minas Gerais. Obtivemos também, com esse contato, informações sobre a existência de moradores que exerceram, quando jovens, a atividade de tropeiro, e que ainda guardam objetos pertencentes à tal atividade.


Na manhã seguinte entrevistamos o Sr. Mauro, que nos forneceu depoimentos de sua história  enquanto tropeiro. Esse assunto mereceria um trabalho específico, no qual se registrasse o tropeirismo. Lembranças da tropa são encontradas pelos quatro cantos da casa do Sr. Mauro. Há uma pequena coleção da cultura material de tropa, como arreios, cuscuzeiros, embornais, alforjes, dentre outros. Existem também artefatos arqueológicos, principalmente cachimbos cerâmicos neocoloniais, encontrados por ele em suas andanças pelas regiões de antigos garimpos e de velhos quintais. A região carece de estudos arqueológicos e históricos, principalmente no que tange às primeiras ocupações do período minerador. Sabemos da existência, no século 19, de várias olarias que abasteciam a região, cuja identificação ainda carece de pesquisa. Recentemente, vem sendo empreendida  pelo IPHAN uma pesquisa arqueológica, no quintal da casa que pertenceu ao General  Carneiro.


5. São Gonçalo do Rio das Pedras

Nessa mesma tarde seguimos viagem para São Gonçalo do Rio das Pedras, e no meio do caminho descansamos em Três Barras, onde almoçamos. O vilarejo figurava na cartografia dos séculos 18 e 19. Hoje, porém, nada resta de testemunho desse período que resguarde elementos do início da sua ocupação, pelo menos do seu pequeno núcleo urbano. No entanto, a paisagem de seu entorno é de notável beleza, apresentando cachoeiras, rios e montanhas.  Em um dos muros da cidade observamos o seguinte verso, modernamente feito em grafite:


Meu bom Martim
Ele era assim
Tão bom p'ra Mim 
Martim morreu

O que será de Mim?



A manhã do dia seguinte foi reservada para a visita aos sítios arqueológicos da região, com a parada em uma pequena fazenda para vermos a produção da farinha de mandioca. Era uma pequena unidade rural, onde quase todos os membros da família estavam envolvidos. Parte da farinha estava sendo torrada, outra já na prensa, e uma terceira no molinete. A prensa, de feições bizarras, serve para o apoiar os esteios, e foi feita a partir de um tronco ainda vivo de um pequizeiro, sem contudo prejudicar visivelmente a árvore. Como pesos para as prensas, utilizam-se blocos de pedras.


Aproximadamente 300 metros à frente encontrava-se o abrigo mencionado pelos moradores (cuja coordenada geográfica é de 661163 E e 7961505 N UTM), sendo designado pelo nome de Abrigo da Várzea.  Nesse local, as pinturas distribuíam-se em três painéis, cuja temática principal é o peixe e o cervídeo em associação direta, executados na cor vermelha. Como já se disse, são elementos característicos da Tradição Planalto. As pinturas encontram-se em bom estado de conservação. Com certeza, no arredor desses sítios devem haver ainda outras manifestações. Uma vistoria  sistematizada irá avaliar o potencial arqueológico da área.


Sugerimos a uma das coordenadoras e fundadoras da FUNIVALE a possibilidade de se realizar um trabalho em parceria com o IEPHA, utilizando-se da técnica da tecelagem e aproveitando-se da estrutura da cooperativa de tapeceiros, para a utilização de motivos da arte rupestre em tapetes a serem produzidos. Esse trabalho seria acompanhado de uma campanha de educação patrimonial, de modo a resguardar o patrimônio arqueológico de intervenções inadequadas e de má manipulação. A proposta foi aceita, e brevemente formalizaremos essa parceria. O objetivo desse trabalho, além da divulgação dos sítios de arte rupestre da região, traz em seu bojo a preservação dos mesmos.


Nessa noite fizemos uma fogueira e nos sentamos à sua volta. Nos deparamos com a realidade: a Expedição estava chegando ao seu fim, estávamos apenas a algumas horas de nos despedirmos. Foi triste, a emoção de alguns foi o suficiente para contagiar a todos. Foi o momento adequado para os últimos depoimentos, e os primeiros de alguns.


6. Diamantina

No dia seguinte, o levantar acampamento, rumo ao nosso destino final – Diamantina. A Expedição havia sido acrescida por novas pessoas, que se incorporaram a ela a partir deste trecho, como por exemplo a filha do nosso companheiro Humberto, uma linda garotinha, que a pé nos acompanhou até o nosso destino.



A chegada foi triunfal, conforme esperávamos. A comunidade nos aguardava nas ruas, nas portas e nas janelas. Adentramos na cidade cantando a música “Peixe Vivo”, entoada por todos até o ponto de chegada - o antigo mercado, hoje centro cultural. A banda de música executou o Hino Nacional, e não havia como escondermos nossa emoção. Estava  traçado o nosso caminho!


Últimas palavras aos desavisados: o caminho foi o mesmo, e os trajetos, adversos. Perdemos muito de nós mesmos, e ganhamos, mesmo que um pouco, parte dos outros.


No trajeto, deparamo-nos com trechos bem conservados do antigo leito da Estrada Real, compostos por calçamentos e pontes em blocos de pedra. O trecho da Fazenda dos Borges (cuja coordenada é de 657266 E e 7964439 N UTM) apresenta-se bem conservado. Acreditamos que esse seja um dos melhores trechos ainda remanescentes do período colonial existente em Minas Gerais. Enfim, avistamos Diamantina.


De São Gonçalo, a próxima parada foi a Fazenda Boa Vista, em Mendes. Assim que chegamos, montamos o nosso acampamento e aguardamos o jantar de confraternização. O cavaleiro Maurício, o do berrante, encarregou-se da cozinha naquele dia. Saiu-se um excelente cozinheiro; tivemos um feijão tropeiro de primeira qualidade!


Nas proximidades da Fazenda Terra Mãe, avistamos uma série de outros abrigos, que também poderiam conter pinturas rupestres. Em um deles (cuja coordenada é de 660810 E e 7961274 N UTM), registramos vestígios de pinturas, já em avançado estado de decomposição. Conseguimos perceber os contornos de um cervídeo, típico exemplar da Tradição Planalto. Esse abrigo foi denominado Abrigo Terra Mãe.


Em São Gonçalo, assim que chegamos, encontramo-nos com a Cristina e com a Zara, que nos aguardavam para a visita ao rancho dos tropeiros. A edificação se encontrava recoberta por uma lona plástica, o que impedia a sua visualização. Solicitamos e obtivemos a autorização do proprietário para visitá-lo no dia seguinte. Inegavelmente, a edificação é interessante, e bastante significativa no contexto da história do tropeirismo. Concordamos com o IPHAN e com a Prefeitura local, que vêm se empenhando na conservação do rancho, a partir de uma negociação com os proprietários. A esse movimento, o nosso apoio.


No percurso para São Gonçalo, na mesma tarde, buscamos trilhas alternativas, desconhecidas por nós, o que fez com que nos perdêssemos no caminho.  Quando a noite chegou ainda estávamos no mato. Felizmente, e com um considerável atraso, que preocupou aos demais expedicionários, chegamos a São Gonçalo. Porém, antes, descansamos um pouco em Milho Verde.


Texto de Fabiano Lopes de Paula - historiador, Mestre em Arqueologia e Superintendente de Pesquisa do IEPHA-MG (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais).

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