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Impressões de um médico andarilho - (SxM)

Do ponto de vista médico, a Expedição transcorreu sem nenhum problema. Somente aqueles que foram responsáveis por nos levar a nosso destino sofreram: nossos pés. Na verdade, o que antes era uma das grande preocupações da equipe organizadora não constituiu empecilho para a realização da Expedição. Durante as consultas que realizei antes do início da caminhada, percebi que se tratava de um grupo bastante heterogêneo, do ponto de vista de preparo físico, e de outras características, como por exemplo a idade, o peso e os hábitos. Durante essas consultas, não constatei nenhuma patologia, do ponto de vista clínico, que impedisse a qualquer um dos integrantes participar da Expedição. Todos os exames foram registrados. Informações como tipo sangüíneo, alergia a medicamentos, patologias prévias, telefones de contato e outros dados foram anotados. Havia, sim, muitas dúvidas e uma certa ansiedade, principalmente devido ao fato de a maioria não ter feito nada semelhante a isto até o presente momento. Alguns queriam saber se suas pernas agüentariam, outros se ocorreriam alterações significativas em seu estado de saúde. Outras perguntas bastante pertinentes relacionavam-se aos cuidados em casos de acidente com animais peçonhentos, à necessidade da hidratação, ao tipo de alimentação, aos cuidados que se deveria ter com os pés e musculatura, dentre outras coisas.

Procurei explicar que a ocorrência de situações graves e emergenciais numa Expedição como esta era muito pouco provável. A maior dúvida foi sanada, ao explicar que devido ao fato de caminharmos sobretudo em estradas e estarmos no inverno, dificilmente encontraríamos serpentes peçonhentas. A dificuldade e risco nesta Expedição estaria, sim, em sua longa duração, que implicava uma adequação do organismo ao esforço físico e psíquico. Nos dias por vir, todos os hábitos diferentes (como, por exemplo, os alimentares, horário de sono, clima, a convivência diária com pessoas estranhas, juntamente com o próprio desgaste do organismo) é que limitariam a chegada ao destino.

Na verdade, o que uma pessoa precisa para percorrer a Estrada Real é, primeiramente, disposição. Aconselhamos que se procure um médico, para fazer um check-up e afastar, assim, qualquer problema de saúde mais sério. Além disso, é aconselhável que não se faça, sozinho, qualquer tipo de atividade ligada a esportes da natureza. Isso porque imprevistos podem ocorrer, e características próprias desses esportes (como a distância ou o isolamento) podem dificultar medidas de socorro. É muito importante que a pessoa compreenda que ela tem que seguir seu próprio ritmo, ou seja, que qualquer esforço que fizer acima do que é capaz poderá e irá prejudicá-la. Em uma viagem a pé, isso é muito mais sério do que se imagina, pois, se o organismo sofrer lesões, tais como estiramentos musculares, a viagem ficará bastante prejudicada e a falsa idéia de ganho de tempo não compensará. O próprio organismo dita seu ritmo e, para isso, tem seus meios de defesa. A dor é um deles. Portanto, o indivíduo deve ficar sempre alerta.

Seguem aqui alguns conselhos sobre:

Alimentação: procure evitar alimentos indigestos durante a caminhada. O ideal é um café da manhã reforçado, com bastante frutas. Durante a caminhada, devemos evitar ingerir grandes quantidades de alimento, visto que a função digestiva encontra-se um pouco suprimida durante esforço físico. O ideal são as barras energéticas, frutas, castanhas e chocolate. Ao término do trecho diário, o jantar reforçado faz muito bem. Procure ingerir principalmente massas, carnes, legumes e cereais. Uma boa alimentação é importante para manter o equilíbrio nutricional, repondo tudo aquilo que foi gasto durante o dia.

Hidratação: ingerir líquido durante toda a caminhada; de preferência água ou bebidas isotônicas, mesmo que não se tenha sede. Deve-se evitar a ingestão de grandes quantidades de uma só vez, pois isso pode provocar desconforto gástrico e até vômitos. O ideal são as garrafas tipo de ciclista ou sacos para água (Camel Back).

O sol: a proteção contra o sol também é importante, pois evita complicações como queimaduras e alergias, que limitam muito o desempenho do caminhante. Além disso, a exposição crônica ao sol pode gerar câncer de pele. O ideal é que a pessoa utilize filtro solar com FPS (Fator de Proteção Solar) de acordo com seu tipo de pele. O mais indicado é o FPS 30. Em locais frios e secos, manteiga de cacau para os lábios também é importante.

Lesões físicas: a prevenção a bolhas nos pés se dá com a utilização de calçado apropriado, devidamente 'amaciado', sem estar apertado ou folgado nos pés. Uma meia de algodão um pouco mais grossa também é importante. No caso de bolhas, deve-se evitar perfurá-las. Se isso ocorrer, curativos próprios estão indicados. A infecção secundária do local é a pior complicação. Dores musculares e articulares são também muito comuns. O uso de calçados apropriados, a precaução com relação ao peso excessivo nas mochilas e até mesmo uma forma mais correta de se caminhar ajudam a evitar problemas como esses. O tratamento consiste em aplicação local ou ingestão de analgésicos e anti-inflamatórios. Contusões podem ser tratadas com frio local. Caso ocorra uma lesão mais séria, que esteja dificultando o caminhar, é melhor aguardar, realizar tratamento e, só então, prosseguir. A sobrecarga pode agravar ainda mais a lesão. Nos casos de fraturas, deve-se imobilizar corretamente a vítima, sem que se tente colocar o membro fraturado no lugar e imediatamente deve-se procurar assistência médica. Isso deve ser bastante frisado, principalmente nos casos de possíveis lesões de coluna vertebral, em que qualquer manobra incorreta pode gerar danos irreversíveis.

Insetos e animais peçonhentos: picadas de insetos, principalmente de carrapatos, são bastante comuns no inverno. Trazem, além do prurido intenso, problemas como alergia, infecção secundária e, em alguns casos, doenças infecto-contagiosas graves, como a febre maculosa. A melhor forma é prevenir, e o método mais eficaz é catar os carrapatos, no momento em que eles estão subindo pelo corpo. Caso isso não seja possível, os carrapatos devem ser arrancados, evitando-se coçar o local. Medicamentos tópicos podem ser utilizados para diminuir o prurido e evitar infeções. Nos casos de alergia, os anti-histamínicos estão indicados. Outros insetos (como abelhas, marimbondos e lagartas) podem constituir problema sério. Indivíduos que têm comprovadamente alergia a esses insetos devem sempre andar com 'caneta de adrenalina' para o tratamento de reação anafilática. Bichos-de-pé também devem ser retirados assim que possível. Os pequenos cortes e escoriações devem ser tratados com todo cuidado anti-séptico, a fim de se evitarem complicações: em situações como essa, a ferida fica exposta à contaminação boa parte do tempo. Nos casos de picadas de cobras peçonhentas ou escorpiões e aranhas, o que se tem a fazer é procurar serviço médico o mais rápido possível. O único tratamento é a soroterapia. Não se deve fazer, em hipótese alguma, torniquete, sangria ou atos desse gênero. A ferida deve ser limpa, a pessoa deve ser mantida hidratada e a calma estabelecida.

Diarréia: devido ao fato de as condições de higiene muitas vezes não serem a ideais, diarréias são comuns. Para evitar problemas como esse, sempre que possível devemos utilizar de métodos para desinfetar a água que iremos ingerir (isso pode ser feito utilizando-se iodo, hipoclorito de sódio etc.). Uma vez instalada a diarréia, a hidratação com soro caseiro ou preparo farmacêutico é o melhor tratamento. A alimentação não deve ser suspensa. Deve-se evitar a utilização de medicamentos que impeçam a evacuação, pois essa constitui uma defesa do organismo ao agente invasor. Nos casos em que as fezes apresentarem sangue ou em que o paciente estiver febril e com sinais de toxemia, antibióticos estão indicados.

Gripes e resfriados: outras patologias comuns são as infecções de vias aéreas superiores, como gripes e resfriados. Tratamento sintomático com antitérmicos e analgésicos é o ideal (Paracetamol, Dipirona, Ácido Acetil Salicílico). Nos casos em que o indivíduo apresentar febre que não cede ao medicamento ou qualquer tipo de complicação, deve-se procurar assistência médica.

Medicamentos: pessoas que fazem uso de medicamentos controlados ou específicos devem carregá-los consigo. De acordo com a localidade a ser visitada, algumas vacinas estão recomendadas.


Devido a problemas pessoais, tive de afastar-me da Expedição por alguns dias. Um outro companheiro me substituiu. Ao retornar, na última semana, encontrei uma agradável surpresa. A maioria das pessoas encontrava-se sem queixas, com um estado emocional equilibrado, e o que era mais surpreendente: relatavam de forma bastante animada um aumento na capacidade física. Percebi, para meu desgosto, que a necessidade de um médico, em um tipo de aventura como essa, não era tão grande assim...


É claro que todos os cuidados para se evitar problemas foram tomados. Procurei, durante toda a Expedição, orientá-los sobre qual seria a melhor forma de se prevenir os problemas e como tratá-los a fim de evitar complicações. O melhor exemplo disto ocorreu com as bolhas nos pés. Essas geralmente constituem o maior flagelo dos caminhantes. Chegam a fazer com que retornem mais cedo para casa. Nesta Expedição, ninguém foi impedido de prosseguir devido a bolhas. Isso porque cuidados prévios (com as botas, meias, e com as próprias bolhas que vieram a surgir) impediram complicações.


Como relatei, a melhoria na capacidade física foi surpreendente. No início da caminhada, a velocidade média dos caminhantes era de 03 Km/h. Além disso, parava-se muitas vezes durante o trajeto e, no fim do trecho diário, muitos queixavam-se de dores musculares e articulares. Quando caminhei no trecho São Gonçalo/Diamantina, confesso ter tido dificuldade para acompanhar alguns deles. A velocidade média passou a 05 Km/h, sendo que já não se parava muito. Ao término do trecho, ninguém (dos caminhantes que partiram de Ouro Preto) se queixava de dores ou algo semelhante. Fica aí a percepção de que o corpo humano é uma máquina perfeita, capaz de se adaptar às mais diversas situações, desde que cuidados sejam tomados. Além disso, confirma-se a hipótese de que nosso corpo ainda se encontra preparado para exercer atividades como esta, e não para ficar sentado atrás de uma mesa de escritório. Nenhum dos expedicionários é atleta, porém, todos perceberam nitidamente os benefícios que uma prática esportiva como esta pode trazer para nosso corpo e nossa mente. Seria interessante se, numa próxima Expedição como a Spix & Martius - 1999, fizesse-se um estudo científico detalhado, comparando-se dados colhidos em exames clínicos e laboratoriais antes e após a caminhada no percurso.


Texto de Paulo Magno do Bem Filho - médico.

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