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A poética dos caminhos - (SxM)

A Poética dos Caminhos  I

Luiz Pucu

O caminho é uma oficina de experimentos.
Para: Evandro Sathler, que sonhou com os caminhos;
Tullio Marques, que acreditou no sonho;
Raphael Olivé, que nos guiou;
Helinho, que marcou o caminho;
e para o SENAC-MG, que atou os laços e desatou os nós.

- I -

O chão
é de ouro e sangue
de algum preto
talhado
taludo
guerreiro
fugido
largado dos pedaços
de alguma dor
adormecida.
Ele passou por estes caminhos
e se alimentou de folhas de lambari
e umbigo de banana.
Dizem que foi para Casabranca
acompanhado de uma índia purunga
procurar uma criança
que sabia estar
p'ra lá de Rio Acima
nas cercanias de Raposos.
No chão dessa estrada
os vestígios desses passos
além do horizonte mais belo
onde bate um coração mineiro
fugindo do desespero.
A cidade ao redor
parece querer abafar
as vozes do caminho para Sabará:
o fogo apagou
tô fraco
tô fraco.
O metalúrgico
marido da Mônica manicure
tem punhos de ferro
e ela reclama
da falta de tempo
amor e cama.
A moça tem um olhar triste
cor da casca verde
do jatobá
Minas
Sabará.

- II -

O tiro da Samitri
me acorda
e hoje é 14 de julho.
Da minha janela
Sabará também desperta.
Um menino
com uniforme escolar
parece que dança
dividindo a rua
com um automóvel metálico.
Acordo de vez
e saúdo Spix e Martius.
Na lonjura do olhar
uma nesguinha da antiga estrada
Sabará - Caeté.
O cheiro do café
avisa que os caminhantes
já estão de pé.
A estrada nos espera
feito uma saudade de amor
que marca encontro
nos caminhos.
O galo canta rouco
da garganta
e lá vamos nós.
Mas antes uma parada
no Sítio Madalena
onde a mesa é farta
colorida de legumes
e hortaliças viçosas
sem o veneno permitido
e incentivado pelo Estado.
Os semblantes de Dona Iara e Seu José
têm a doçura da cana
e o buquê da cachaça
que faz Caminhante levitar.
Quem nos guia
ergue o cajado
p'ra pedir silêncio.
O sadu fala dos caminhos
e diz que devemos ser o único
dono de nossos passos.
Em seguida sorri longo
enveredado de estórias.
Ah, é o Olivé
o que navega a dor
com os pés.

- III -

É de tangerina
a cor do cipó São João
que enfeita os caminhos de Caeté.
O chá das flores e folhas
é um santo remédio
para o resfriado.
(O banho tira mau olhado).
Parece que a natureza
veio fazer pose
se mostrar
de um jeito
tão de peito
e mais a garoa matinal
que imprimia magia
a gargalhada duns mineiros
num quintal
de uma casa azul e branca
(com mais de seis águas)
e um portão
com cruz enfeitada
de papel crepom
das festas de Nossa Senhora. do Rosário
que por essas bandas
tem mais prestígio que o Senhor.
Sumo de cucuciaria
para aquietar os calos
desses pés que não escolhem chãos.
(Seu chá é bom pra coqueluche).

- IV -

A névoa escorre
pelas paredes de ouro da igreja.
Lá estão os tropeiros
com seus diamantes
embriagados e febris.
Urram e atiram para o alto
no pátio da majestosa igreja
de N. Sra. do Bonsucesso.
Por aqui
o chafariz
é tão zangado
na força de algum pecado
dum português
prum rei
feito escravo.
Chega a dar medo.
E se duvida
vá lá
vá lá
pra ver!

- V -

O caminho é uma rua
Mato Dentro
e foi por aqui
que nasceu Edson Piedade
rosto de índio Caeté
e olhos em lugar algum.
Anda de pés
26 anos
e veve cuma mulher
que tem uma penca de filhos
bem uns oito.
(Sabe que eu às vezes até perco a conta?!?!)
E foi por aqui
que nos conhecemos.
Ele pintando
de carvão (que alimenta o dragão de ferro)
e eu de ocre
do pó da estrada.
Um encontro de dois minutos
e ele ainda teve tempo
de me chamar de doido
por andar tantos quilômetros
e de imitar o canto do japiim.
Nos despedimos
como velhos conhecidos
e quando ia adiante
uns 200 metros
indagou:
- O que é do lobo
que o homem não come?

- VI -

Do Rancho Novo
avisto o Espinhaço
e os gaviões soberanos
de vôo e voz.
O eucalipto
toma lugar da candeia
no caminho semeado
de ouro e prata.

Luiz Pucu -  jornalista, poeta e artista plástico.

 

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