Turismo

Estrada Real

Senac
  • Logo Senac Minas
  •  
  • Hotel Grogotó

A Mobilização Social e Ecoturismo na Estrada Real II - (SxM)

...Continuação...

 

4.Identidade cultural: valores preponderantes na cultura da região
À medida que a investigação avançava, tornava-se evidente a relação estreita da forma de viver de algumas comunidades com a atividade geradora de emprego que ali se desenvolveu. Alguns comportamentos compartilhados observados nesta pesquisa possibilitaram identificar valores preponderantes – que se encontram listados abaixo –, oriundos de uma cultura com traços agrícolas e extrativistas, além de legados do tropeirismo.

4.1. Hospitalidade

Proveniente da cultura preponderantemente agrícola encontram-se a intimidade com a roça e com o preparo de guloseimas feitas dos produtos extraídos do campo, para receber as visitas, ouvir e contar as novidades. A hospitalidade se caracteriza principalmente pela disponibilidade com que nos receberam em suas casas, oferecendo conforto, comidas caseiras deliciosas feitas no fogão à lenha, pratos típicos (carne moída com umbigo de banana do Seu Basílio, o cubu de Ipoema, o pastel de angu de Sra. do Carmo  e os vários feijões tropeiros). A elaboração de doces de leite, de frutas, queijo, também nos indicaram a relação estreita entre o prazer de cozinhar e receber as visitas para uma prosa. Ainda mais uma prosa de quem vem de fora, trazendo novidades como a dos pesquisadores da Expedição e a dos tropeiros que viajavam pela região.

Nos ranchos onde o pouso era parte da tradição, ouvia-se todo tipo de estórias, fazendo do tropeiro uma fonte e um difusor de informações e notícias, produto tão valorizado quanto o toucinho e a aguardente que geralmente transportavam.
 (Evandro Sathler - expedicionário idealizador do projeto e pesquisador do tropeirismo)

Eu aprendi a cozinhar com minha mãe. O pernil eu aprendi com ela. Eu adoro cozinhar .
(Tereza – moradora de Caeté)

Aqui a gente sabe fazer vinho de jurubeba, jabuticaba, biscoito de polvilho, geléia de mocotó, vinagre de banana. Todo mundo aqui sabe fazer. Tem a banana São Tomé, que faz o vinagre, molha num pano e põe no lugar da pancada. Pode tomar também. Se for um corte, é só acrescentar sal.
(D. Maria – moradora de Itapanhoacanga)


A hospitalidade é traço permanente, mas é preciso gerar confiança primeiro, senão pode ser percebida como intromissão. Sempre que chegávamos a algum lugar em que não nos conheciam, precisávamos, antes, demonstrar a que vínhamos, e pedir licença para entrar. Já diz a velha história que mineiro é desconfiado...  Mas, quando confia, abre suas portas.


_ O que a Sra. acharia de estar ganhando dinheiro para hospedar pessoas aqui?

_
Tenho receio, as vezes vem muita gente boa mas, as vezes vem muita gente ruim. É difícil saber quem é bom e quem é ruim.
(Diálogo que se deu entre as autoras e a Sra. Francisca, moradora de fazenda situada entre Cocais e Bom Jesus do Amparo)

_ Mas o pessoal nessa região é extremamente hospitaleiro. As pessoas recebem muito bem em casa.

_ Por que um povo tão hospitaleiro não consegue atrair o turismo?

_ É a coisa do hospitaleiro, mas também reservado. Mineiro é muito hospitaleiro, mas muito reservado. Eu te conheci aqui agora. Alguém nos apresentou e você passou a fazer parte da minha família. Você vai comer na minha mesa, dormir na cama da minha casa, as minhas portas estão literalmente abertas. Mas porque alguém quebrou o gelo, te incluiu para mim.
(Diálogo entre as autoras e Fernando, morador de Caeté)

 


4.2. Religiosidade

É importante ressaltar que os valores religiosos, em sua maioria católicos, estão sempre presentes, sendo a igreja um elo de apoio e de influência. As casas paroquiais contam com o empenho de senhoras que atuam na assistência social à comunidade. As festas citadas como mais tradicionais e movimentadas são reconhecidamente religiosas, especialmente Nossa Senhora da Conceição (08 de dezembro).

As primeiras construções avistadas da estrada são sempre as Igrejas Católicas, com suas exuberantes belezas, marcando épocas, estilos arquitetônicos e artísticos, reafirmando suas crenças e compondo um quadro de esperança numa entidade superior que venha um dia trazer o futuro promissor tão desejado.

 


4
.3. Tradições

Na maioria das comunidades visitadas, as pessoas expressam um cuidado natural e quase cerimonioso pelos hábitos e tradições transmitidos de geração a geração.

Dessa forma, ainda apresentam originalidade na maneira de receber as pessoas, na preparação da culinária típica, na arquitetura e decoração das casas, nos objetos e na beleza natural.


Fazemos a cachaça só para manter a tradição, porque se você deixar a coisa acabar... Porque lá embaixo tem uma coberta, um madeirame antigo.
(Sr. Onervino – morador de Ipoema)

Depois deste tempo, eu consegui comprar esta propriedade, em 1960. Aí, passei a manter sempre um lote de burro, um cavalo de boi, que é uma tradição em minha família. Eu mantenho o carro-de-boi, que não tem muita utilidade, mas a tropa trabalha sempre. Porque eu não esqueço da vida antiga.
(Sr. Onervino – morador de Ipoema)


A arte de cozinhar, a organização e a limpeza, valores atribuídos às mulheres, estão quase sempre presentes e são transmitidos de mãe para filha.

No entanto, esses processos, além de originais, são tão artesanais, que demandam tempo e respeito a cada etapa. Sendo assim, o imprevisto e a pressa geralmente tendem a deixá-los irritados. Alguns doces, como o de limão, por exemplo, demoram dias para ficarem prontos. Mas, saboreá-los recheados com o doce de leite, é algo realmente indescritível!


A gente está aqui na rua enchendo a lingüiça, enquanto esperamos a Expedição chegar. Aqui, é tradição preparar a comida para os visitantes.
(D. Marilac – moradora de Córregos)

_ A senhora recebe gente aqui.
_ Muita gente, quase sempre.
_ Eles almoçam aqui?
_ Almoça quando avisa, porque eu moro longe dos armazém. O supermercado é só em Barão que eu faço compra. Ou aqui em Cocais. Você não tem arroz, não tem feijão. Tem galinha caipira, mas demora o dia inteiro para cozinhar. Como é que eu vou fazer almoço?
(Diálogo entre as autoras e D. Maria, moradora de Pedra Pintada, Cocais)


As inúmeras recepções que os cavaleiros ofereciam à Expedição permitiram constatar que o tropeirismo deixou um traço marcante na identidade deste trecho da Estrada Real, onde o cavalo é fonte de entretenimento e prazer, apesar de ter perdido, em muito, sua função de transporte. Os diversos clubes do cavalo encontrados no percurso são exemplo de como o prazer de cavalgar, por puro entretenimento, é mobilizador das comunidades em questão. Sendo assim, as atividades de cavalgadas e passeios a cavalo indicam um forte potencial que pode ser transformado em produtos ecoturísticos da região.

A gente foi numa cavalgada, é o João, neto do Sr. Agostinho, que foi guiando a gente. Ele foi o guia. Só ele sabia a trilha e foi guiando os cavaleiros. Nossa, seria ótimo, se for esse o turismo na região.
(Tereza – moradora de Caeté)

Eu vou ter as baias. Eu já tenho alguns clientes querendo estas baias, o pessoal de Itabira. Talvez a gente comece pelas baias, antes do hotel. O que não vai faltar é gente aqui para cuidar dos cavalos, tratar. O pessoal é alucinado com cavalo. É o trabalho de tirar leite, essa coisa toda e a diversão deles é o cavalo no final de semana. Vou aproveitar isto.
(Êdo – morador de Turvo)

O cavalo, você conversa com ele, como se fosse uma pessoa. Você vai chegar perto dele, chamar o nome dele, conversar com ele, fica, quieto vai por ali. Passa a mão nele.
(Sr. José –  morador de Barão de Cocais)

_ Mas é triste ver ferrar o cavalo...
_ É triste no ponto que é a primeira vez. Você tem que bater, eles se machucam. Com o tempo volto ao normal.
_ Mas então é diferente de gente!
_ Não, não é.
_ Mas, gente também tem que bater?
_ Tem, subconsciente é assim. Às vezes você fez uma coisa com uma pessoa, ele não acha bom aquilo e quer vingar. São irracionais igual aos animais. Os animais falam irracionais, mas ele é muito melhor que lidar com certas pessoas. Você tem que dar para ele carinho, dialogar com ele. E eles entendem. Não é dizer que eles são irracionais não. Eles são racionais. Você tem que fazer um carinho com eles, um dialogamento com eles.
(Diálogo entre as autoras e Geraldo, vaqueiro da Tropa da Serrana, que acompanhou a Expedição.)

Também é possível encontrar, na maior parte do trecho que percorremos, grupos folclóricos, festas tradicionais populares e religiosas, bandas, serestas etc., que lhes conferem um estilo próprio de ser.

Festejar é um hábito constante. Em Ipoema, os homens chegam às fazendas com churrasco e com a cachaça especial em punho; as mulheres preparam o lanche, e o coral de idosos canta a seresta. Em Conceição do Mato Dentro e no Serro, receberam-nos com marujadas, cabocladas e bandas de música. É um povo festeiro, com saudades de tempos mais efervescentes de festas. As religiosas são as mais freqüentes, mas todos se queixam que já foram bem melhores no passado.

A festa principal é a festa de São João Batista, o padroeiro do lugar. Ele é o São João do presídio, que ele ficava preso. Ele ficava na prisão,  e depois  a sociedade pediu a cabeça que foi colocada numa bandeja. Portanto,  Barão de Cocais foi descoberta no dia dele. Dia 29/08/1704. Que é o dia da morte dele. Mas é comemorado no dia 24/06 , que é o dia do nascimento dele. A festa  vai do dia 15 a 24 de junho. Nessa festa tem todas as características da festa junina, como barraquinhas, as quadrilhas, pau-de-sebo, tem cavalinho de balaio. Vem muita gente porque é festa de âmbito  regional.
(Leonel –  morador de Barão de Cocais)


O bem-estar que o silêncio da natureza pode oferecer ao turista nem sempre é tão bem-vindo às comunidades. A música alta nas festas sempre diz do desejo de quem lá vive
de que algo se mova, aconteça e movimente a cidade. Nem sempre a música tão alta é bem-vinda ao visitante que busca o relaxamento, o descanso ou a paz interior.

Este fato é interessante de ser apontado, por ser um aspecto de contraste que terá de ser administrado por visitantes e receptores. Parece que a vida agitada busca a calma, e a calma quer a energia para mover seu mundo. É possível conviver pacificamente, mas muitas vezes torna-se difícil descansar, quando é este o interesse do visitante.

Não sei que graça vocês vêem aqui. A gente vê esta montanha todo dia. Não tem graça. Quem vem de fora é que valoriza. A gente nem liga mais. A vida aqui é tão parada. A gente sente falta é de um agito.
(Nídia – moradora de Itapanhoacanga)

_  Por que vocês ouvem música tão alto?
_ Porque a vida aqui é muito parada. A gente precisa de alegria. Aí a gente põe música alta para exaltar, para trazer a alegria lá de dentro.
(Diálogo entre as autoras e Nídia, moradora de Itapanhoacanga)

Com a chegada de vocês, nós resolvemos colocar a música na Igreja para alegrar a cidade. Há muito tempo não tinha uma alegria assim. Até que enfim alguma coisa aconteceu de novo. Tem que comemorar, aumentar o som.
(Garoto, em rua da cidade de Senhora do Carmo.)


O artesanato é encontrado em escassez, mas é possível perceber o talento com a palha, o bordado, a elaboração de doces, as panelas de pedra sabão e o tear, como destaques. As pessoas que vivem dessas atividades enfrentam dificuldades financeiras e de comercialização, pois as pessoas da região não valorizam o artesanato local.

_ Eu vou para o Canadá até ano que vem.
_ O que você vai fazer lá?
_ Lá tem pedra sabão. Vou trabalhar lá. Aqui ninguém valoriza o que eu faço. Lá é considerado artista, aqui é pobre mesmo.
 (Diálogo entre as autoras e João, artista em pedra sabão, do Serro.)

 


4.4
. Administração do tempo
O tempo, nessas pequenas localidades, ao contrário dos grandes centros, corre a favor das pessoas e, na maioria das vezes, lentamente. Têm todo o tempo do mundo para planejar e executar suas atividades. Portanto, não há pressa para se preparar coisa alguma, uma vez que todas as suas atividades são geralmente previstas e confirmadas com antecedência. Dessa forma, existe pouco espaço para imprevistos, e as situações repentinas são consideradas fora do propósito contratado e, portanto, inoportunas e incômodas.


Hoje não vai dar para fazer o quiabo com milho. Vocês tinham que ter avisado antes. Agora vou ver o que posso fazer. Mas o quiabo, que é a tradição, não faço não. Sem avisar não dá.
(Proprietária de restaurante, em Ipoema.)

 

 


5. Modo operante de gerir recursos

Esses valores identificados, provenientes das culturas antecessoras, orientam as ações cotidianas, compondo o modo operante das pessoas administrarem a própria vida, caracterizando uma maneira comum à maioria das comunidades da região pesquisada de gerir os recursos humanos, naturais e materiais. Esta forma de sentir, pensar e agir, por sua vez, precisa ser bem compreendida, para que possa ser analisada à luz do potencial ecoturístico da região e do pressuposto filosófico do Ecoturismo.

 


5.1. Recursos Humanos

Na maioria das comunidades visitadas não existem formas organizadas e preparadas para gerir os vários talentos e recursos de que dispõem para a implementação do Ecoturismo. As poucas organizações sociais espontâneas encontradas são as associações comunitárias e religiosas que se ocupam exclusivamente da assistência social à população carente. A gestão das ações comunitárias encontra-se arraigada a uma cultura paternalista, na qual se esperam do governo e de outras entidades as decisões, presentes e futuras, relacionadas ao desenvolvimento social.


_  A comunidade espera o desenvolvimento da cidade?
_ Espera, mas tomar a iniciativa precisa de alguém chegar e fazer. Aqui tem muitas pessoas inteligentes e competentes. Tem muito, mas não aproveita as oportunidades. Onde eu estou qualquer um pode fazer o que eu faço, mas não tiveram a oportunidade que eu tive. Não abraçaram a oportunidade. Comando quatorze municípios. De Caeté a Dores de Guanhães.
(Diálogo entre as autoras e Geraldo, morador de Ipoema.)

As pessoas aqui se reúnem, mas não são unidas. E, na casa das pessoas unidas, não se reúne. Então falta o quê? A liderança, uma pessoa para dar o ponto inicial, para ter encontro, ter um objetivo. Todos nós somos inteligentes, mas o que falta é pessoa determinada. Essa pessoa que é líder.
(José Inácio Vieira – morador de Itabira)

_ Eu dirijo o coral daqui. Estou sempre viajando com eles. É da igreja.
_ Por que o coral não veio cantar?
_ Pois é, minha filha, mas aqui o povo é tão agarrado que não explica nada para a gente direito. O padre falou na igreja até cansar, a Elenir, minha sobrinha, bem falou. A gente tem vontade de reunir. Mas cadê? Eles não vêm. Queríamos que a comunidade reunisse.
(Diálogo entre as autoras e  D. Zenite, moradora de Ipoema.)

Os clubes do cavalo, existentes por toda a região, são outra forma de associação que demonstra organização e motivação, porém de atuação bastante orientada para a confraternização. Cada vez mais se organizam em torno de encontros e pequenas viagens, acompanhados de pinga e comida típica. É uma estrutura organizada que pode ser potencial para organização de aventuras ecoturísticas (passeios e atividades eqüestres).

Nós fundamos a Tropa Boiadeira de Raposos para acompanhar procissão, fazer abertura de festas do cavalo, passear por Sabará, Morro Vermelho, Caeté, Nova Lima, Rio Acima. Uma coisa antiga, né? Essa tropa é tipo uma comitiva, igual do Pantanal. Lá tem tropa boiadeira. Aí surgiu a de Nova Lima. Mas nós tentamos fazer uma tropa boiadeira mais organizada que a de lá. A de lá é avacalhada, porque entra cavalo no meio de burro...

(Sr. Nofito – morador de Raposos)


Em Córregos (distrito de Conceição do Mato Dentro), existe uma associação comunitária mais orientada para implementação de novas perspectivas de geração de renda, através da liderança do Bispo D. Pelé. A comunidade se organizou em grupos com responsabilidades sociais específicas (grupo da limpeza da cidade, grupo do acolhimento, grupo das cozinheiras etc.), além de ter viabilizado uma cooperativa de polpa de frutas, para gerar renda para os jovens, evitando o êxodo rural.

Em Conceição do Mato Dentro, a liderança de D. Leonor Aparecido de Oliveira já mobiliza as bordadeiras para viabilizar uma cooperativa que comercialize seus produtos, e o SEBRAE fará uma capacitação empreendedora para este fim.

A maioria das pessoas entrevistadas apresenta uma visão de futuro incerta e pouco otimista. Muitos estão descrentes, alguns esperam a indústria ainda nos moldes clássicos, cheias de emprego, e outros já proclamam o turismo como fonte promissora de geração de emprego/renda.

Apesar de apresentarem a tradição como valor, os depoimentos também revelaram que, dentro do relacionamento familiar, parece ter havido uma interrupção na passagem de valores de pais para filhos. Os pais queixam-se do desinteresse dos filhos em preservar alguns valores e costumes e em dar continuidade aos negócios empreendidos por eles.

Também é possível constatar que os jovens estão se dirigindo para os grandes centros em busca de melhor formação e maiores perspectivas de trabalho, quando não permanecem em sua cidade de origem acomodados e desesperançosos em relação ao futuro.

Ao que tudo indica, esta ruptura na passagem de valores da estrutura familiar provoca reflexos prejudiciais à construção da identidade individual dos jovens, inviabilizando a elaboração de seus objetivos pessoais e profissionais e causando queda da auto-estima, inércia e pessimismo frente ao futuro.


Os pais não estão podendo assumir aquele compromisso que eles têm com os filhos e é preciso existir. Pra viver, você precisa de um limite. Eu sinto, como mãe de família, falo de cadeira pra você, que nós temos uma tendência de quando a coisa aperta pro nosso lado, às vezes, nós nos acomodamos. Se incomoda, então vou me acomodar. É preferível ficar boazinha, ótima no meu cantinho e deixar a coisa correr bamba, mas não é certo isso. Então é isso que nossos filhos estão precisando de nós darmos uma sacudida neles e falar: “Meu filho, nós existimos, nós somos seus pais, nós precisamos de vocês, vocês precisam de nós, nós amamos vocês muito.”. Hoje os pais não têm tempo nem pra falar isso pros filhos: “acorda meu filho, acorda! Nós estamos aqui, oh! Nós somos seus pais”.

Nós temos uma história... Ah, Isso! Está precisando resgatar esses valores, essas histórias maravilhosas dos nossos antepassados e que hoje nós esquecemos de passar isso pros nossos filhos. Eles precisam se sentir amados, valorizados, os jovens e muitas vezes nós nos esquecemos disso e deixamos a coisa passar a bel-prazer. Então, como ele se sente rejeitado, só, sem sentido nenhum pra viver, então acaba fazendo asneira. Eles não se sentem valorizados, perdem a auto-estima, e isso é muito triste, e nós é que somos culpados também, as famílias. E também, não é só deixar eles agirem à maneira deles, como querem, não. Às vezes, vão pro caminho errado. Mas, nós, com medo deles ficarem com raiva da gente, chateados com a gente o quê que a gente faz? A gente deixa eles irem naquele caminho errado que eles já vão e não é certo. Onde está a nossa responsabilidade de pais, onde? É isso que nós precisamos: amar mais nossos filhos, mas amar com limites pra eles...amor exigente! Temos que amar, mas temos que exigir deles, cobrar! Porque ele está novo e não sabe o caminho a seguir, não. Por isso, ele desorienta-se todo e acaba caindo no erro.
(D. Dudu – morador de Turvo)


_ Como  você imagina o futuro nessa região? Como seus filhos vão viver aqui?
_ Ah, difícil. Minha filha eu acho que não vai viver por aqui. Acho que assim que ela estudar, ela vai para a cidade grande. É o sonho dela. Meus filhos já vão ficar por aqui. Um mexe com cavalo lá em Barão, e o outro mexe com tropa de burro. Eles vão ficar aqui. Eu gostaria que tivesse emprego para todo mundo, que ficasse todo mundo por cá. Que tivesse indústria para o pessoal trabalhar, sei lá o quê, alguma coisa que não precisasse sair para ganhar a vida lá fora.
(Diálogo entre as autoras e Tereza, moradora de Caeté.)


Foi possível perceber também, em várias declarações, que o alcoolismo anda crescendo por lá, e os índices de suicídio no trecho Ipoema/Senhora do Carmo já fazem com que Itabira tenha um atendimento específico para cuidar do problema. Estes dados são importantes para refletirmos se a ruptura de valores e o declínio do emprego na região já estão comprometendo seriamente a motivação das pessoas.

O grande potencial ecoturístico da região, no entanto, já abre uma nova perspectiva, reconhecida por algumas comunidades como possível fonte geradora de renda (várias secretarias municipais já apresentam interesse em incrementar estratégias de desenvolvimento do turismo). Porém, ainda não está claramente definido o planejamento, como viabilizar as ações (dificuldades com infra-estrutura) e com que critérios de qualidade. A percepção já emergente a respeito do turismo como esperança futura é a de que existe muita gente querendo consumir belezas naturais, coisas antigas, ver e ouvir histórias, comer comida boa e .... que tal uma boa pinga da roça?

A visão estratégica para agenciar o turismo ainda é incipiente e carece da compreensão deste mercado com mais rigor. Não há ainda uma visão clara da necessidade do turista (perfil do cliente promissor). Estão apostando que as pessoas vão gostar do que têm, porque é prazeroso para eles (comer tropeiro com cachaça, fazer muita festa, contar casos e andar a cavalo).


_ Eles já estão buscando alternativas para geração de renda através do turismo, então?
_ Não. O pessoal não está acordado ainda. Eles ficam ainda querendo saber como vão melhorar as vacas de leite. O leite virou uma atividade para grandes empresários. E as fazendas são de pequena propriedade.  Famílias com muitos filhos. É difícil a gente trabalhar com 30, 40 vacas de leite, e ter lucro. Tem que  trabalhar em escala. Nós temos uma cooperativa para melhorar esta situação, mas nós temos uma concorrência de uma potência de leite em Minas Gerais que é a Itambé. Pegando leite de grandes produtores por um preço menor.  Mas eu acho que o turismo é um negócio muito maior, muito mais interessante. Por isto, estou planejando meu negócio, que vai chamar Hípica dos Coqueiros. Meu terreninho lá chamava, antigamente, Pasto dos Coqueiros. Tem muitos coqueiros, e eu vou montar um centro hípico. Uma pista de provas, de treinamento, um pequeno hotel, um restaurante. E vou trazer cavalos.
(Diálogo entre as autoras e Êdo, morador de Turvo.)

Então, essa passagem suas aqui, eu falei com meus meninos: “Eu quero vocês lá, porque é uma história que tá iniciando.”. Parece que não é nada, vocês vão passar, mas para nós aqui nunca vai passar. Tem tudo aqui: tem artesanato, folclore. O povo tem que acordar para isso.
(Sr. José Inácio – morador de  Ipoema)

_ O que pode ser o futuro para Caeté?
_ O turismo, o ecoturismo melhor ainda. Caeté tem uma serra maravilhosa, Serra da Piedade, e uma mata maravilhosa. Tem Morro Vermelho (com um restaurante gostoso), tem a cachoeira de Santo Antônio, que fica em Morro Vermelho, que eu não conheço, mas todo mundo que vai lá adora. Tem a fazenda que tem cachoeira. Pode trazer um bem social violento. Vocês estão no lugar certo, porque é um pessoal carente da cultura de turismo e muito receptivo.
(Diálogo entre as autoras e Fernando, morador de Caeté.)

 

 


5.2
. Recursos Naturais

As mais recentes atividades geradoras de emprego na região advêm da cultura e prática extrativista, sem prever a reposição (como a carvoaria, extração de candeia, reflorestamento de eucalipto, mineração e indústrias metalúrgicas), causando impactos predatórios no meio ambiente.

Como conseqüência da cultura extrativista, foi possível identificar que a maioria dos moradores desta região não valoriza tanto o patrimônio natural. A exploração do potencial florestal não inclui o raciocínio ecossistêmico, e a beleza natural não é, ainda, um valor estimável. O trabalho artesanal com o taquaraçu e indaiá, presente em quase todo o trecho, por exemplo, já é encontrado com escassez, indicando que o ciclo natural não é preservado e, muitas vezes, é desconhecido pelos próprios artesãos.

 

_ Até o ano passado, eu vivia de taquara, mas deu um fracasso, e não tá aparecendo taquara boa mais, a gente faz qualquer coisa: serviço de pedreiro, carapina... mas se tiver a taquara só trabalho com taquara, mas acabou, né? Só tem essa taquara escura e essa não dá serviço bom. O meu maior problema é conseguir a taquara. Já tá faltando. Eu vou longe para buscar. Por isso tá difícil continuar fazendo os forros.

_ Por que está acabando?

_ Isso eu não sei não.

 (Diálogo entre as autoras e Divino, artesão de Cocais.)


Embora seja evidente a redução dos recursos naturais e, por isso, o aumento de leis que regulam a exploração de tais recursos, limitando, de certa forma, essa atividade, ainda existe o raciocínio, por parte das lideranças comunitárias, de que a perspectiva futura de geração de emprego encontra-se na instalação de novas indústrias na região. O município de Barão de Cocais, por exemplo, ainda mantém uma relação estreita e quase exclusiva com as companhias que ali se instalaram e que, recentemente, apresentaram uma redução de dois terços do quadro de funcionários. Acrescente-se também o fato de que, nessas regiões, o poder público ainda apresenta pouca abertura  a novas alternativas de geração de renda para a população.

_ Aqui a economia gira em torno da Gerdau?
_ E da Socoimex também. O prefeito está em reunião com a Gerdau agora e não pode atendê-los. Eles vão ajudar a gente na melhoria da praça ali. Depois eu ligo para vocês para a gente conversar.
(Diálogo entre as autoras e um funcionário da Prefeitura de Barão de Cocais.)

Era a Belgo que mandava. Você pergunta: “Você quer fazer alguma coisa?”. Eles falam: “Eu queria trabalhar na Belgo. A Belgo é isso, é aquilo.”. Tá tudo morrendo de fome. Na verdade, o empregado é um sofredor.
(Diálogo entre as autoras e J.P., morador de Sabará.)

A gente tira candeia, porque tem uma fábrica de óleo de candeia. Isso dá sempre. Não tem problema, o nosso trabalho é esse, sempre foi.
(Depoimento de um transeunte, em Morro do Pilar.)

Considerando que a preservação do meio ambiente, principalmente dos recursos hídricos, é de importância fundamental para a implementação do Ecoturismo, ficou claramente constatada a inexistência de uma consciência ambientalista compartilhada que venha agregar valores mais compatíveis com este novo propósito à cultura dessas comunidades.


O pessoal não está conscientizado do mal que o fogo faz. Você faz isto com o turista, e ele vai ficar chocado com uma queimada na área. Eles já estão até conscientizando que têm que preservar a natureza, mas jogam papel no chão, jogam latinha de cerveja no rio. Infelizmente, aqui ainda se fala assim: “Ah! Vai dar muita mão-de-obra para roçar aquilo ali para plantar. Bota um foguinho  para resolver.”. A mão-de-obra é cara. O pessoal não esta conscientizado do mal que o fogo faz.
(Êdo – morador de Turvo)

 

 


5.3. Recursos Materiais

A dificuldade para se conseguir um improviso para quem está chegando e a importância que os comerciantes de alimentação dão à encomenda feita com antecedência para a preparação artesanal das refeições fortalece a idéia de que a orientação para o cliente e a rapidez no atendimento não são características que se pode esperar em se fazendo turismo na região. Há de se pensar se o ecoturista tem estas necessidades. É possível que o fluxo crescente de demanda provoque alterações nos investimentos atuais. Será esta uma característica a se alterar ou um traço da identidade que define um estilo próprio?


Ele agora vai por o restaurante para funcionar, fazer uma pousada lá para o povo ter um apoio melhor aí. Quando a pessoa quer vir para comer, ele faz uma comunicação, previne. Ele não pode fazer as coisas e largar lá, porque perde as coisas.
(Sr. Onervino – morador de Ipoema)

Será necessário refletir a interrelação do potencial de hospitalidade para com a demanda de originalidade no jeito de receber os visitantes. Muitos restaurantes visitados apresentam um estilo frio de mesinhas de ferro, balcões altos e muita distância da cozinha. Onde fica o prazer de comer dentro de uma casa típica, à beira de um fogão de lenha? Pratos, talheres, toalhas de mesa podem manter o estilo limpo, colorido e sempre muito à vontade. Come-se muito e bem, mas os vegetarianos irão encontrar dificuldades. A carne é a base da alimentação e é utilizada com freqüência e abundância nos pratos típicos.


Aqui se come arroz, feijão e carne. E quando eu falo de carne, meu pai e minha mãe vieram da roça, a gente come bucho de boi, pé de boi, pé de porco, miúdo de boi, tudo da carne.
(Fernando – morador de Caeté)

Gêneros alimentícios como hortaliças e legumes são raramente encontrados e, ao que tudo indica, costumam consumir o que plantam nas fazendas. Existe ainda o costume de pegar em hortas vizinhas esse tipo de produto e não é comum encontrá-los à venda. Incrivelmente, alguns agricultores vendem seus produtos para o CEASA, e muitos comerciantes vão ao CEASA para comprar verduras e legumes e revenderem para a própria comunidade. Este fato fortalece a idéia de que a mobilização social é tão incipiente que não se pensa numa maneira de otimizar os recursos disponíveis para as próprias comunidades.


O alimento que é consumido aqui vem do CEASA com agrotóxico. O que é plantado aqui tem uso mínimo de agrotóxico, mas é consumido apenas pelos familiares dos sitiantes.
(Sr. Carlos, Secretário de Meio Ambiente de Rio Acima.)

A banana de Senhora do Carmo vai ao CEASA e depois volta para a comunidade.
(Carlos Humberto,  agrônomo da Prefeitura de Itabira.)


Em geral, o comércio ainda se caracteriza por estabelecimentos tipo armazéns ou pequenas vendas, que oferecem produtos de primeira necessidade, como farináceos, lactarias, produtos de limpeza, de higiene pessoal e doméstica. Poucos estabelecimentos vendem produtos como filmes e baterias para máquinas fotográficas, artesanato local ou doces e guloseimas típicas. Com exceção de Ouro Preto e Diamantina, que já têm um comércio mais voltado para os visitantes, na maior parte do trecho foi difícil encontrar utensílios típicos, materiais de interesse dos turistas. O comércio é básico, e a prestação de serviço, incipiente.

A maior parte dos comerciantes não tem um controle eficaz de custo/lucro e é bastante tímida para inovações. Não há uma cultura empreendedora de risco. Só se encontra disponível aquilo que é comumente consumido pelos moradores, e o estilo preponderante de comercializar não prevê uma estratégia de abordar o mercado consumidor, mas de ficar fazendo conta (o dinheiro escasso) para ver se vale a pena o “negócio” vindo de fora. Não há uma cultura de atendimento às necessidades do cliente e nem tampouco de inovar para criar novos hábitos nos clientes. É necessário que muitas pessoas estejam interessadas em um produto para que só então passem a comercializá-lo.


_ E o senhor já deixa acampar na sua fazenda e já recebe pra dormir também?
_ Recebo, não. Só pra acampar.
_ O senhor cobra quanto?
_ Nada.
(Diálogo entre as autoras e Sr. João, na Fazenda Sobrado,
localizada em Rio de Peixe.)

A outra coisa é como cobrar. É impressionante! Em nenhum desses passeios o pessoal me cobrou o almoço. Dez pessoas descem, amarram o cavalo, almoçam, comem doce, tomam cerveja, dormem no sofá. Aí eu falo:

_ Agora eu quero acertar, quanto é?
_ Nada.
_ Mas, como?
   Nós estamos montando um negócio para ganhar dinheiro. Se você não aprender a cobrar, não ganha.
_ Ah, mas não custou nada.
_ afirmam alguns.
_Pois é, ao mesmo tempo que eles têm que ser conscientizados que é para cobrar, têm que saber que não é para explorar. E ensinar o que o turista quer.   Rapadura,por exemplo. Eles falam:
_ O cara vai comprar rapadura? Eu não uso mais rapadura. Faço café com açúcar.
Cachacinha eles sabem o valor que tem para o turista, mas como é R$1,00, então leva, que eu vou dar de presente.
(Êdo – morador de Turvo)

Enviar link