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Ecoturismo e Ecodesenvolvimento: Uma Perspectiva Geocientífica - (SxM)

No seu percurso total, abrangendo tanto o Caminho Velho como o Caminho Novo, a Estrada Real atravessa, na parte meridional do Estado, terrenos predominantemente cristalinos, que apresentam serras escarpadas nas proximidades do Vale do Paraíba, colinas arredondadas nas áreas onde as rochas cristalinas se transformaram em manto laterítico, exibindo ainda pães de açúcar, frentes de blocos falhados e cristas monoclinais. Nos seu trajeto intermediário, destacam-se os Campos Altos da Mantiqueira.


Ultrapassada a região do Quadrilátero Ferrífero, tem início a Estrutura Espinhaço, com escarpas voltadas predominantemente para o leste, exibindo também cristas monoclinais e fragmentações de origem tectônica
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Para oeste, a redução gradativa dos níveis altimétricos alcança as superfícies aplainadas e as formas tabulares seccionadas por cursos fluviais da Bacia do São Francisco, onde correm, nas superfícies das chapadas, magníficos oásis conhecidos localmente pelo nome de veredas e surgem, vez por outra, formações cársticas salpicadas de dolinas e inúmeras grutas de grande importância turística, espeleológica e arqueológica.


Nesse conjunto, destaca-se a Serra do Espinhaço, assim denominada a partir do trecho sul de Belo Horizonte, onde o Quadrilátero Ferrífero exibe com pujança formas estruturais que enfeitam a paisagem e proporcionam panoramas de rara beleza.


A aridez das rochas quartzíticas e a tonalidade dos itabiritos destacam os processos erosivos acentuados pelas falhas tectônicas, dotando a paisagem da região de uma riqueza cênica envolvida por formações botânicas sem igual, dando à área um grande potencial para o Ecoturismo.


A riqueza da geografia de todo o percurso atravessado por Spix e Martius merece estudos profundos e uma avaliação adequada ao entendimento atual de que as atividades turísticas não podem mais ser trabalhadas meramente por curiosos e por pessoas desprovidas de uma formação cientifíca especializada.


Tornam-se portanto fundamentais o zoneamento prévio das diversas áreas com maior vocação para o Ecoturismo e a disposição de se fazer uma avaliação sobre a possível degradação ambiental decorrente do aumento do fluxo turístico e, sobretudo, a definição de comportamentos adequados à relação cidade/campo/meio ambiente.


A expansão populacional e seus efeitos sobre o meio ambiente, a questão da redução do êxodo rural, o abastecimento e consumo de energia, o volume e a qualidade da água, bem como a gestão adequada dos parques florestais, as conseqüências econômicas e sociais do fluxo da população e as alterações provocadas na paisagem precisam ser avaliadas com rigor científico, no intuito de se evitar desastres. Para tanto, é necessário implantar uma gestão preocupada com os riscos provocados pelo desenvolvimento tecnológico e suas conseqüências no campo social.


A evolução da legislação ambiental deverá alcançar alternativas para o controle das intervenções que se fizerem necessárias e também daquelas que poderão comprometer o quadro natural.


É praticamente impossível separar a política de gestão dos riscos provocados pelo progresso, geralmente tecnológico, da política que deverá definir os níveis dos riscos naturais e suas relações com as necessidades da sociedade. É impossível também disciplinar a relação entre a expansão urbana e a convivência com as paisagens naturais, pois os 'hábitos urbanos' de muitos daqueles que vivem nas cidades alteram a sua própria relação com a natureza.


As alternativas, nesse caso, serão, sem dúvida, a montagem de programas de representação cartográfica e de interpretação permanente dos registros relacionados com as interferências humanas na paisagem.


A utilização cada vez maior do Sistema de Informações Geográficas (SIG), que nada mais significa que a aplicação das tradicionais metodologias utilizadas pelos geógrafos, com inovações na organização dos dados coletados através da informática, evidencia a busca desse caminho.


Essa compreensão a respeito da distribuição dos fenômenos geográficos e o entendimento sobre a repartição dos fatos e de sua evolução tornam os geógrafos, arquitetos, bacharéis em Turismo, dentre outros, os profissionais mais indicados para trabalharem a área.


Expedições, idealismo, espírito de aventura, deslumbramento, emoções e encantamentos são fundamentais, mas a análise científica, a interpretação sistemática dos fenômenos naturais, o conhecimento profundo das geociências e a capacidade de compreensão da relação homem/natureza são indispensáveis para que não ocorra nenhum tipo de agressão através do desenvolvimento, alcançando-se assim os reais objetivos do Ecodesenvolvimento.


Daí, a necessidade mínima de se identificar, mapear e interpretar o espaço a ser explorado. Não sendo atendidas essas recomendações, não sendo entendida a complexidade do relacionamento homem/meio ambiente, os riscos poderão vir a ser incontroláveis, e a educação ambiental, totalmente inócua.


Sonhemos todos, mas acordemos conscientes da necessidade do saber, para que seja exercida a sabedoria.


Texto de  David Márcio Santos Rodrigues - Diretor Geral do Instituto de Geociências Aplicadas (IGA).

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