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Estrada Real

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Considerações sobre o produto turístico Estrada Real - (SxM)

1. Apresentação
A concepção (eco)turística da Expedição Spix & Martius - 1999 (Estrada Real) foi inspirada na experiência de Ana e Martin Kuhne que, na década de 70, empreenderam em tropa várias viagens da serra do Cipó até São Gonçalo do Rio das Pedras (Serro), em Minas Gerais. Essas viagens foram integradas por alunos da Escola Suíça do Rio de Janeiro, com idades variando entre 12 e 15 anos. Os equipamentos eram transportados pelos animais cargueiros, e os integrantes seguiam a pé. Essa experiência, aqui considerada (eco)turística, já naquela época se demonstrava viável, do ponto de vista operacional, constituindo-se um produto  atraente. A Expedição Spix & Martius - 1999 teve um caráter científico e multidisciplinar, de acordo com os objetivos e metodologias expostos no projeto. Foi integrada por pesquisadores de diversas áreas, sendo um dos objetivos principais do projeto o levantamento do potencial turístico da Estrada Real ao longo do trajeto.


O trajeto percorrido pela Expedição foi pesquisado, buscando reproduzir com a máxima exatidão o trajeto utilizado por Spix & Martius, há 180 anos, qual seja: Ouro Preto, Glaura, Acuruí, Rio Acima, Raposos, Sabará, Caeté, Barão de Cocais, Fazenda João Congo, Ipoema, Senhora do Carmo, Itambé do Mato Dentro, Rio do Peixe, Morro do Pilar, Conceição do Mato Dentro, Córregos, Itapanhoacanga, Serro, São Gonçalo do Rio das Pedras, Diamantina.


A Expedição potencializou o registro de imagens preciosas, documentadas em vídeo e fotografia, além de dezenas de horas de entrevistas com a gente do caminho, orquestradas pelos diferentes pesquisadores (expedicionários). Essas informações servem de contribuição para o diagnóstico e  consolidação da Estrada Real enquanto produto ecoturístico. A adaptação da atividade tropeira ao (eco)turismo e o fomento dessa atividade pela Estrada Real, objetos deste relatório, serão tratados adiante.


2. Estrada Real
Considera-se Estrada Real os caminhos (e suas variantes) construídos nos séculos 17, 18 e 19, no estado de Minas Gerais, conforme o parágrafo único da Lei MG 13.173 de 20/1/99, que dispõe sobre o Programa de Incentivo ao Desenvolvimento do Potencial Turístico da Estrada Real.


A Lei supracitada prevê, em seu Art. 2º, uma série de objetivos: I - possibilitar o incremento da arrecadação do Estado e dos municípios mineiros; II - incentivar o investimento privado no território do Estado; III - promover a alteração do perfil de distribuição de renda e elevar o nível de emprego da população do interior do Estado; IV - promover e divulgar a atividade turística interna e de lazer no Estado; V - resgatar, preservar e revitalizar os pontos de atração turística e de lazer já existentes, bem como os sítios arqueológicos, espeleológicos e palenteológicos e as paisagens naturais não exploradas, interligados pela Estrada Real.


3. O produto Estrada Real: a experiência do Caminho de Santiago de Compostela
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A experiência vivida pela ExpediçãoSpix & Martius - 1999 permite afirmar que a Estrada Real já é um produto praticamente pronto para operação.


As duas modalidades turísticas experimentadas, quais sejam, caminhada e tropeirismo, podem ser operadas a qualquer tempo. Contudo, alguns ajustes  podem contribuir para o aperfeiçoamento da Estrada Real, enquanto produto ecoturístico. Na modalidade de caminhada, a Estrada Real guarda muita semelhança com o Caminho de Santiago de Compostela, no norte da Espanha, que recebe todos os anos milhares de peregrinos e turistas de diversos países, estando os brasileiros entre os que mais se destacam em número de visitantes. Ressalvadas as diferenças culturais, o Produto Estrada Real pode ser consolidado enquanto produto ecoturístico, a partir da observação da experiência compostelana.
 

A Rota Jacobea,  ou Caminho de Santiago de Compostela, também conhecida por “Camino Real”,[1] surgiu antes da era cristã. Essa rota era intensamente utilizada para o comércio, sobretudo no apogeu do Império Romano. Além de comerciantes, muitos estudiosos e aventureiros percorriam esses  caminhos. À época, a Terra ainda era tida como plana. Assim, seguindo o rumo do poente, chegava-se ao extremo oeste da Europa, onde acreditava-se ser o final do planeta. Nesse ponto, existe uma cidade com o nome de  cabo de Fisterra (finis terrae) ou “fim da terra” para os romanos. Já na era cristã, o apóstolo Tiago, após a morte de Cristo, seguiu por essa rota pregando o evangelho pelo norte da península Ibérica. Morto, Tiago teria sido enterrado em local desconhecido. Um certo  eremita de nome “Pelayo” afirmou ter visto  luzes misteriosas nos campos, daí o nome Campos Estelares ou Compostela. Nesse lugar, encontraram uma ossada, e logo atribuíram pertencer ao Apóstolo Tiago. Ali, ergueu-se uma capela que, mais tarde, deu lugar à Catedral de Santiago de Compostela. Desde então, milhares de peregrinos chegam a Santiago de Compostela, para visitar o túmulo do apóstolo.


A partir do século 9, intensificou-se a peregrinação ao túmulo de San Tiago. Esse fenômeno atravessou os séculos e, até hoje, repete o mesmo intuito. A religiosidade
cristã é a principal marca do Caminho de Santiago, mas não é o único atrativo. Muitos peregrinos preferem ser considerados apenas como turistas, dedicando-se a conhecer a exuberante paisagem do norte da Espanha, suas inúmeras igrejas, mosteiros, castelos medievais e principalmente a catedral de Santiago de Compostela.


O livro O Diário de um Mago, do escritor brasileiro Paulo Coelho, contribuiu para a  divulgação do Caminho de Santiago em vários países.


O Caminho de Santiago de Compostela é intensamente percorrido por brasileiros. Geralmente, eles  empreendem a caminhada de aproximadamente 700 km, iniciada em Pamplona (ou Roncesvalles) até Santiago de Compostela. Com pouco equipamento, os caminhantes percorrem diariamente uma média de 20 kms. Alimentam-se nos bares e restaurantes, abastecem as mochilas nas “tiendas” ao longo do caminho e dormem nos refúgios, alojamentos, albergues da juventude e campings. Os  refúgios, mais utilizados, variam em conforto e forma de administração. Alguns oferecem apenas cama (sem roupa de cama), e outros, além da cama, oferecem uma sopa à noite, servida coletivamente. Todos os refúgios oferecem banheiro limpo e com água quente. É normalmente  tudo que o peregrino necessita depois de um dia de jornada. Os custos para pernoite são praticamente  simbólicos, não passando de alguns poucos dólares. Geralmente, os refúgios são administrados ou autorizados pela Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela.


Não se trata, portanto, de um produto exclusivamente turístico. Embora comercializado por operadores e agências, a grande maioria dos peregrinos faz o caminho por conta própria, bastando, para tanto, um guia de bolso, que pode ser adquirido com facilidade. Tal guia traz as principais informações para a jornada (como alimentação, refúgios e locais de interesse nas aldeias e cidades do caminho, além de informações históricas etc.).Ao iniciar o caminho, o viajante recebe a “Credencial del Peregrino”,  que registra o local e a data do início da jornada. Essa credencial funciona como um passaporte, no qual é carimbada diariamente a passagem do peregrino pelos refúgios, igrejas ou estabelecimentos credenciados pela Associação. Na chegada a Santiago de Compostela, a referida credencial é apresentada às autoridades eclesiásticas, e o peregrino recebe a “Compostelana”, que lhe confere o título de Peregrino do Caminho de Santiago de Compostela, desde que tenha percorrido no mínimo 100 Km.


3.1. Caminhada:  pontos em comum entre a Estrada Real e o Caminho de Santiago de Compostela.

No que concerne à Estrada Real e, em particular, ao trecho percorrido pela Expedição, a semelhança com o Caminho de Compostela se reflete na religiosidade, seguida pelo conjunto arquitetônico que é em regra composto pelas  inúmeras igrejas e pelo casario colonial, em praticamente todos os povoados, vilas e sedes municipais. Algumas dessas jóias da arquitetura barroca  são tombadas pelo Patrimônio Histórico e são, às vezes, o principal atrativo dos lugares.


Quanto à alimentação, a  Estrada Real guarda igualmente muitas semelhanças com o Caminho de Santiago de Compostela. São várias  opções: desde os tradicionais botequins, típicos dos lugares, até restaurantes de categoria internacional, nas cidades com mais infraestrutura. Em todo caso, nas beiras de estrada não falta uma “vendinha”, casa ou fazenda que ofereçam um café, uma fruta, ou uma iguaria qualquer ao caminhante que passa. Essa atitude foi freqüentemente observada ao longo do caminho da Expedição.


As pernoites, como veremos com mais detalhe abaixo, aconteceram nas mais diversas formas, que vão desde acampamentos  até a pernoite no confortável Hotel Del Rio, em Sabará.


3.2. Tropeirismo
O tropeirismo e sua adaptação à atividade (eco)turística foi um dos principais objetivos da  Expedição. No Brasil são conhecidas  algumas iniciativas dessa atividade, sejam  localizadas ou regionais.


Para ilustrar, citamos o pantanal mato-grossense-do-sul. Algumas fazendas oferecem pacotes, nos quais o turista pode acompanhar as comitivas de gado, que são levadas de uma região a outra, na “época da cheia” (outubro, novembro e dezembro), em busca de pastagens mais altas. O mesmo ocorre na “época da seca”, com o fluxo inverso.


Na Chapada Diamantina (Bahia), alguns operadores já realizaram jornadas com caminhantes, acompanhados por tropa, no mesmo estilo tropeiro visualizado pela Expedição Spix & Martius - 1999. No sul do Brasil, existem pousadas e hotéis-fazenda que oferecem o produto (cavalgada).


No que concerne à Expedição,  a parceria firmada com a Tropa Serrana, de Belo Horizonte (MG), foi fundamental. A Tropa Serrana é pioneira na operação regular de cavalgadas. Atuando no mercado turístico há vários anos, ela possui excelência internacional. Oferece, além de passeios de um dia, cavalgadas com pernoite, inclusive por  trechos da Estrada Real entre Belo Horizonte e Ouro Preto.


A experiência da Tropa Serrana, aliada ao apoio da Fazenda Novo Horizonte, de Carmo do Rio Claro (MG), garantiu o sucesso da Expedição, na sua modalidade de “montaria”. A Fazenda Novo Horizonte, que vem se especializando no tropeirismo em comitiva no sul de Minas, cedeu a tropa utilizada pela Expedição, composta por 17 animais (muares: burros e mulas; e dois eqüinos: cavalo e égua). A tropa garantiu o charme da Expedição, e despertou nostalgia ao longo do caminho, merecendo salva de palmas nas chegadas aos povoados. Lágrimas foram arrancadas dos mais antigos, emocionados pela lembrança dos tempos de infância, quando as tropas circulavam intensamente.


A condução de tropas requer um ou mais peões na lida diária. Nesse sentido, o Produto Expedição empreendido por tropa garante de imediato a utilização de mão-de-obra, considerada simples, mas para o produto Expedição, tal atividade é tida como  especializada. Esse fato estimula  e valoriza os recursos humanos locais. No final de cada dia de jornada é necessário desarrear os animais, lavá-los, provê-los com água limpa para beber e um pasto para alimentação. Em alguns casos, é necessária uma complementação alimentar, como ração ou feno, e, não raro, ferrar um animal ou aplicar-lhe algum medicamento. Esse serviço pode ser acompanhado e auxiliado pelo próprio cavaleiro, mas é o tropeiro (peão) que conhece o animal e a arte tropeira, sendo geralmente a pessoa mais indicada para esses serviços,  devendo ser bem remunerado.


A infraestrutura necessária para a tropa esteve disponível em praticamente todos os locais de pernoite ao longo do caminho utilizado pela Expedição, não tendo representado um  problema  ou originado qualquer transtorno. Sempre há um curral, um pasto disponível para o pernoite dos animais, com água e demais necessidades da tropa. Tal infraestrutura é garantia de receita para pequenos proprietários, donos de curral, fazendeiros e clubes de cavalos. 


4. Roteiros
Como se depreende do Diário de Bordo, terceiro capítulo deste livro, houve pouco tempo para conhecer melhor cada local por onde a Expedição passou. Em todo caso, foi possível dimensionar o potencial turístico das localidades.


Aqueles que não dispuserem de  tempo, podem conhecer a Estrada Real, ou partes dela, em menos tempo, começando ou terminando a jornada em qualquer ponto dentro do trajeto. Seja na versão caminhada ou tropeira (cavalgada).


A seguir, expomos algumas opções de trajetos pela Estrada Real, principalmente para caminhantes, não obstante sirvam também para tropeiros e ciclistas:


Partindo de Ouro Preto, rumo a Glaura, Acuruí, Rio Acima, Raposos, Sabará, Caeté, Barão de Cocais, Parque do Caraça, Santa Bárbara, Catas Altas, Mariana, e de volta a Ouro Preto. Esse roteiro faz uma volta na serra do Caraça, constituindo-se basicamente de cidades históricas. Raposos e Sabará estão localizadas na região metropolitana de Belo Horizonte, permitindo que o percurso comece e acabe nessas localidades para o público da Grande B.H. Tal trajeto pode ser completado em 10 ou 12 dias. Um pouco mais rápido, se feito a cavalo ou em bicicleta.


Partindo da BR 262, na altura do trevo de Bom Jesus do Amparo, rumo a Ipoema, Senhora do Carmo, Itambé do Mato Dentro, Morro do Pilar e Conceição do Mato Dentro. Esse roteiro pode ser empreendido em 7 dias, retornando pela rodovia de Conceição do Mato Dentro para Belo Horizonte. Esse roteiro permite a visita ao Parque Nacional da Serra do Cipó, na volta.


Partindo de Conceição do Mato Dentro, rumo a Córregos, Tapera, Itapanhoacanga, Serro, Milho Verde, São Gonçalo do Rio das Pedras e Diamantina. Retorna-se, então, por estrada rodoviária, de Diamantina para Belo Horizonte.


5. Infraestrutura
A infraestrutura é aqui entendida como os meios de hospedagem e alimentação.  No caso da Estrada Real,a infraestrutura foi um pouco além, considerando-se a necessidade de acomodação da tropa e demais necessidades dos animais. Os expedicionários (caminhantes e cavaleiros) dormiram em  escolas, centros comunitários, pousadas, hotéis, fazendas, casas de moradores das cidades visitadas e áreas de acampamento. Em qualquer caso, sempre houve o conforto necessário para recuperar as energias. Não faltou banheiro, embora nem sempre o banho fosse quente.


No tocante à alimentação, a mesma se dava geralmente nos locais de pernoite, fosse no próprio local da pernoite ou em algum bar/restaurante próximo. O jantar era a principal refeição, sempre servido coletivamente.


O café-da-manhã era servido com simplicidade, e às vezes com algum requinte, dependendo da hospedagem. Durante o dia, a alimentação se dava nos estabelecimentos disponíveis no caminho, como bares, botequins e restaurantes em geral. Não raro, as casas e fazendas ao longo do trajeto convidavam os caminhantes para um café, sempre acompanhado de algum quitute da roça. Frutas eram servidas sempre em abundância. Essa hospitalidade, típica de Minas, configura um excelente atrativo do produto Estrada Real.


No caso da tropa, como já mencionamos acima, sempre houve pasto, curral e demais infra-estruturas necessárias para acomodação dos animais e dos peões. Assim, ao longo do trecho empreendido na Estrada Real pela Expedição, a infra-estrutura é presente, em menor ou maior grau de conforto.


A sinalização do caminho é precária. Nas estradas de rodagem, a sinalização é praticamente inexistente, o que compromete a estruturação do produto. Nesse sentido, sugeriremos mais adiante um mecanismo para a sinalização de todo o caminho, de forma integrada com a paisagem, e que sirva para caminhantes, cavaleiros e veículos automotores em geral.


O sucesso da Expedição foi garantido pela dedicação da equipe de produção,  apoio e Relações Públicas, que contou com o respaldo das prefeituras municipais, das lideranças comunitárias (através das associações de moradores,  centros culturais e pessoal ligado às igrejas e escolas), além dos clubes de cavalos e de rodeios.


6. Atrativos
Por atrativo se entendem os componentes naturais, sócio-culturais, econômicos, dentre outros, capazes de atrair visitantes. Durante a Expedição foram percebidos inúmeros atrativos em cada localidade, e  outros deixaram de ser conhecidos (em função da distância em que se encontravam, não havia tempo para o deslocamento até estes pontos). Em todo caso, os atrativos percebidos nas localidades por onde a Expedição passou são suficientes para caracterizar o produto Estrada Real.  A pura e simples existência de algum atrativo, sobretudo natural, não garante a chegada de visitantes. Quando inexiste a infra-estrutura para recebê-los, é melhor, em muitos casos, que eles não venham. Muitas vezes, e com muita rapidez, um local belíssimo pode ser degradado tendo em vista a chegada intensa de visitantes sem consciência. Rotulando, é o turismo de massa, que chega em ônibus de excursão,  que nada ou pouco trazem para as comunidades locais e, em regra, poluem o ambiente com barulho e lixo.


Assim, é necessário que os atrativos identificados como de interesse para a visitação turística recebam um tratamento especial, planejando-se a operação desse componente (atrativo) integrado ao produto como um todo.Neste sentido, há que se suprir as comunidades com a recomendada visão e capacitação para  operação desses atrativos. Nessa linha, a iniciativa do SENAC-MG, conjugando esforços com as Secretarias Municipais de Turismo aliadas à iniciativa privada e ONGs (em especial a Associação Mineira de Operadores de Turismo Ecológico – AMO-TE), podem em muito colaborar na necessária tarefa de capacitar mão-de-obra, indispensável para o melhor aproveitamento do produto e seus diferentes atrativos.


Planejando o setor turístico, quer a nível municipal, estadual ou integrado, como na proposta do Produto Estrada Real, é que se visualiza o setor turístico garantindo divisas horizontalizadas para as comunidades, espalhando benefícios ao maior número de pessoas possível.


Abaixo, destacamos alguns atrativos e dissertamos sobre eles.


6.1.   Atrativos sócioculturais e econômicos
Praticamente todas as localidades por onde a Expedição passou pertencem ao circuito histórico, com o casario colonial barroco que por si só já é um atrativo consolidado.


A já citada hospitalidade e a cozinha mineira com seus contos e “causos” à beira do fogão de lenha, acompanhada da boa e conhecida  cachaça, podem ser consideradas como um atrativo universal do Produto Estrada Real, haja vista sua presença por todos os cantos. Existem, ao longo do trajeto da Expedição, vários alambiques produtores de  aguardente tipo exportação,  o que agrega ao Produto Estrada Real um excelente atrativo. Além de se degustar uma  boa cachaça, é possível ainda conhecer as  diferentes etapas de sua produção.


O folclore, como a marujada, por exemplo, é motivo de grande orgulho para os municípios que mantêm viva essa tradição; outras festividades populares, como o forró, as bandas, procissões, quermesses,  rodeios, entre outras,  podem integrar uma agenda de eventos que garantam  um fluxo de visitação espalhado pelos diferentes meses do ano, minimizando o conhecido desequilíbrio causado pela intensa visitação nas temporadas altas contra a mínima visitação na baixa temporada. Algumas comunidades possuem personagens de destaque. Esses podem  ser considerados patrimônio do município. Para ilustrar, citamos o exemplo do Sr. Domingos, um eremita que vive numa gruta entre a cidade de Itambé do Mato Dentro e Rio do Peixe há muitos anos. É o tipo de personagem exótico, que não se encontra em qualquer parte, sendo a visita à sua morada um atrativo especial.



Os museus, galerias de arte, teatros, bares e restaurantes constituem, além de atrativos, pontos de geração de renda. Não se esquecendo da produção artesanal, que varia desde gêneros alimentícios (doces, geléias etc.) até os artesanatos  em fibras, metais, panos e outros materiais.



Algumas comunidades, como Córregos (Conceição do Mato Dentro) e São Gonçalo do Rio das Pedras (Serro), possuem inúmeras atividades que mobilizam a população em prol do coletivo, como a produção alternativa de alimentos. Essa mobilização, em forma de cursos e projetos, por exemplo, vem colaborando para a conscientização da população, ao mesmo tempo em que gera renda. Tais cursos podem integrar a agenda de eventos, e os projetos podem ser considerados atrativos, garantindo-se mais um componente de visitação. Outras localidades podem se inspirar nesses modelos, adaptando-os à realidade de suas comunidades, para aumentar sua gama de atrativos.


6.2.   Atrativos naturais

Os atrativos naturais são, via de regra, os componentes que mais atraem visitantes a uma determinada região. In casu, a  geografia da vertente oriental da Serra do Espinhaço, região  por onde a Expedição se deslocou a maior parte do tempo,  é de extrema beleza, oferecendo uma paisagem exuberante. Ao longo de todo o caminho foram observados grandes bolsões de mata nativa, com seu  gradiente de transição de Mata Atlântica para o Cerrado de Altitude. Observou-se também  o impacto causado pelas mineradoras e a monocultura do eucalipto, impacto este que não compromete  a beleza da paisagem nem a consolidação do Produto Estrada Real. As diferenças de altitude propiciam a existência de inúmeras coleções hídricas. São nascentes, cachoeiras e rios - em sua maior parte - apropriados para banho,  permitindo várias formas de lazer.Durante a Expedição, foram observadas mais de 250 espécies da avifauna, além de mamíferos, como a capivara e o veado campeiro, animais cada vez mais raros na natureza.


Por conta desses atrativos naturais é possível a realização e o fomento de várias atividades ligadas ao turismo de aventura, tais como: escaladas, caving, rapel, canyoning, boiagem, rafting, vôo livre, trekking, biking, entre outros esportes radicais e de aventura que podem ser desenvolvidos na região, garantindo o fluxo constante desses tipos de esportistas.


6.3.   Sítios arqueológicos
Minas Gerais tem destaque garantido no cenário arqueológico brasileiro e mundial. Tal fato constitui por si só um grande atrativo, garantindo a vinda de visitantes. É o conhecido Turismo Cultural, que combina atrativos naturais com os rastros deixados por nossos antepassados. Alguns sítios arqueológicos, caracterizados por pinturas rupestres, foram percebidos ao longo da Expedição. Inclusive, foram descobertos dois novos sítios arqueológicos pelo expedicionário  Fabiano Lopes de Paula, superintendente de pesquisa do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais - IEPHA. Um foi batizado de Sítio Arqueológico Spix & Martius, localizado próximo a Itapanhoacanga (Alvorada de Minas) e o outro, batizado de Sítio Arqueológico Terra Mãe, em São Gonçalo do Rio das Pedras (Serro). Foi classificado, ainda, um sítio já conhecido pela população e batizado com o nome  de Sítio Arqueológico da Vargem, também localizado em São Gonçalo do Rio das Pedras.



As ruínas da primeira fundição de ferro-gusa do Brasil, localizadas em Morro do Pilar e empreendidas pelo Intendente Câmara no começo do século 19, constituem um grande atrativo, embora não estejam preparadas para visitação. Acredita-se que, com a consolidação do Produto Estrada Real, as autoridades municipais de Morro do Pilar em conjunto com as autoridades estaduais viabilizem a preparação das ruínas para visitação pública, o que pode resultar na geração de empregos e receita para o município.


7. Público-alvo
O público-alvo para o Produto Estrada Real pode ser amplo. Destacamos o público caminhante, neste primeiro momento, a exemplo dos peregrinos do Caminho de Santiago de Compostela. Esse pode ser o público- alvo inicial, com maior capacidade na consolidação do Produto Estrada Real. Não obstante, num segundo momento, a versão tropeira do Produto Estrada Real, resguardado seu grau de complexidade,  pode seguir o rastro dos caminhantes. Em qualquer caso, o público-alvo aqui identificado depende de um  mínimo de infraestrutura (boa parte já existente) para viajar pela Estrada Real.


Sendo possível viajar para a Europa para trilhar o Caminho de Santiago de Compostela, tão mais fácil será trilhar a Estrada Real. Somente a economia na passagem aérea já é suficiente para custear a viagem pela Estrada Real, sobrando, ainda, um bom dinheiro.Com algum trabalho de marketing, os brasileiros que já trilharam o Caminho de Santiago de Compostela poderiam ser convidados a planejar uma viagem pela Estrada Real. Essa iniciativa serviria para levantar dados sobre a capacidade de carga da Estrada Real, além de coletar dados para o aperfeiçoamento do produto.


Com relação à versão tropeira, acreditamos que os clubes de cavalo, fazendas de criação e associação de criadores, bem como operadoras e agências de turismo podem organizar cavalgadas pela Estrada Real em momento oportuno.Na qualidade de operadores de turismo há pelo menos 15 anos, operando o receptivo de estrangeiros por todo o Brasil, é sempre uma satisfação vislumbrar um novo produto para um mercado permanentemente carente de novas investidas.  A Estrada Real é mais do que um produto. É também um novo caminho na concepção e planejamento de roteiros turísticos.


Acreditamos na boa aceitação desse produto para o mercado internacional, sendo uma forma definitiva de incluir Minas Gerais no cenário de visitação. Além dos aspectos já consolidados no mercado, como o tradicional roteiro das cidades históricas, o produto Estrada Real extrapola esse  conceito, integrando ao que Minas tem fama uma gama de novos aspectos e atrativos, que são desconhecidos do mercado.


8. Conclusão
Finalizando esta colaboração, sugerimos abaixo um roteiro, um step-by-step simplificado, no planejamento e implementação do Produto Estrada Real. Com o estabelecimento de uma forte parceria entre os diferentes atores (Poder Público, iniciativa privada e ONGs) interessados neste Produto, Minas Gerais pode inovar no segmento turístico.


Iniciar gestão junto à TURMINAS, para deslanchar o Programa de Incentivo ao Desenvolvimento do Potencial Turístico da Estrada Real, previsto pela Lei 13.173/99, estabelecendo uma Comissão Executiva (ou Consultiva) com representantes de instituições ou entidades ligadas à historiografia, ao turismo, ao meio ambiente e a outras atividades afins no planejamento, na execução e na fiscalização deste programa, nos termos do § 1º do Artigo 3º da Lei supracitada. Caso a TURMINAS, na qualidade de Poder Público, não tenha a desejada agilidade na condução do processo previsto pela Lei em tela, sugerimos que a Associação Mineira de Operadores de Turismo Ecológico (AMO-TE), em parceria com o SENAC–MG, assumam o processo e, sendo o caso, liderem a criação da Associação dos Amigos da Estrada Real.


Estabelecida uma Comissão (ou Associação), sua maior atribuição será elaborar e implementar  o Projeto de Consolidação do Produto Estrada Real, partindo-se de um roteiro como modelo, por exemplo, o  roteiro utilizado pela Expedição Spix & Martius - 1999. A exemplo do Caminho de Santiago de Compostela, o visitante poderia receber um passaporte (ou uma credencial) que comprovasse seu engajamento cultural com a Estrada Real e, no final, esse passaporte ou credencial se transformaria num certificado, conferindo ao visitante um título a ser definido. Num segundo momento, outros roteiros poderão ser trabalhados, utilizando-se a experiência com o roteiro modelo, observando-se a capacidade de carga de cada comunidade e seus limites de acomodação e alternativas.


Criação de um critério para cadastrar estabelecimentos para pouso, alimentação e afins, visando a arregimentar pessoas e estabelecimentos sintonizados com o Produto Estrada Real, de forma que cada comunidade possa oferecer conforto aos visitantes, nas paradas para alimentação e  pernoite, bem como na visitação dos atrativos naturais, condução de esportes radicais e de aventura, museus, teatro, shows etc. Tudo isso dentro de um patamar de custos padronizados, evitando-se grandes discrepâncias de preços para os mesmos serviços entre uma localidade e outra.


Criação de um símbolo que identifique a Estrada Real, para sinalização do caminho propriamente dito e identificação dos diferentes estabelecimentos cadastrados, a exemplo do Caminho de Santiago de Compostela, onde uma sinalização padrão indica o Caminho e os lugares de interesse ao longo de todo o trajeto. Essa sinalização deve ser planejada respeitando-se a soberania dos municípios e, mais que tudo, envolvendo as comunidades na execução dessa empreitada.


Oferecimento de cursos de mobilização popular e capacitação de mão-de-obra nas diferentes comunidades, que visam a colaborar no entendimento do Produto Estrada Real e a preparar os diferentes atores em sua administração nas comunidades. Vale dizer que cada comunidade poderia ter um escritório da Associação dos Amigos da Estrada Real, agregado à Prefeitura, à igreja etc., e que funcionaria como um pólo gestor do Produto, fornecendo informações para os interessados em oferecer algum serviço e local, para que os visitante obtenham informações gerais sobre os locais de interesse, forma de visitação etc.. Nesses locais, os visitantes também poderão deixar suas sugestões, reclamações etc.


Confecção de folheteria e divulgação institucional do produto, junto a feiras especializadas em Turismo, operadoras e agências de viagem em todo o Brasil. Essa empreitada requer recursos e investimentos, que podem ser viabilizados utilizando-se os mecanismos previsto pela Lei em tela.


Por fim, o roteiro previsto para a  Estrada Real pode ser adaptado por instituições de ensino na sua formação escolar. Equivale dizer que  estudantes e acadêmicos podem percorrer a Estrada Real como atividade extracurricular ou equivalente a um estágio, e com isso somar pontos na sua formação. Essa alternativa, além de excelente forma de aprendizado, retira o aluno de um ambiente de sala de aula para a realidade das comunidades.


O Produto Estrada Real não é tão somente um pacote turístico comprado numa agência de viagens. Trata-se de um conceito de viagem, no qual se prevê a passagem constante (diária) de visitantes, independente de férias, feriados, fins-de-semana e estações de pico. Ainda, a exemplo do Caminho de Santiago de Compostela, embora existam épocas do ano mais recomendáveis por uma questão climática, a rota européia recebe viajantes o ano inteiro. No caso da Estrada Real, nosso clima viabiliza o fluxo de visitantes o ano inteiro, talvez com exceção do mês de janeiro, em que há chuvas em demasia.


Outra característica do Produto Estrada Real a ser ressaltada é o custo da viagem. É importante, para o sucesso desse produto, que haja um padrão de hospedagem, alimentação e demais serviços correlatos, e que tal padrão se reflita nos custos, evitando-se que em alguns lugares o custo seja um e, em outros, o custo para o mesmo serviço seja muito maior, o que descaracterizaria o produto. Melhor é que não haja uma tabela de preços, e que o estabelecimento do custo dos serviços  seja sempre confiado ao bom senso dos atores. A regulagem dos preços se fará exclusivamente pelos visitantes, que serão estimulados a não pagar por hospedagem e alimentação que ultrapassem certo patamar, recomendando-se que busquem alternativas, como passar direto por determinada vila que não se encaixar na política de consolidação do Produto Estrada Real. É nossa sugestão.


Texto de Evandro Sathler e Lúcia Velasco

Evandro Sathler - advogado ambientalista, guia da EMBRATUR, consultor em ecoturismo e Diretor do Conselho Deliberativo da Universidade Livre, Experimental e Comunitária do Vale do Jequitinhonha (FUNIVALE).

Lúcia Velasco- operadora de Turismo Receptivo e Peregrina do Caminho de Santiago de Compostela.

[1] GOIKOETXEA, Imanol. El camino de Santiago. Léon: Ediciones Lancia, 1993. p. 6.

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