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Considerações Finais: Pelos Caminhos da Estrada Real - (SxM)

Antes de mergulhar no material colhido durante a Expedição Spix & Martius - 1999, para compilar dados e construir um texto, ocorreu-me considerar certa referência registrada pelos autores de Viagem pelo Brasil, pois sua história inspirou nossa pesquisa. Assim, logo no começo, eles comentam:


Foi nos primeiros dias do mês de maio de 1818 que deixamos a capital de Minas Gerais e encetamos viagem para o Distrito Diamantino... Em geral, toma-se a estrada por Inficcionado (hoje, Santa Rita Durão) quando se sai de Vila Rica, hoje Imperial Cidade de Ouro Preto, para Tejuco (hoje Diamantina), a localidade mais importante da terra dos diamantes; como, entretanto, na nossa excursão à Serra do Caraça já conhecíamos parte desta região, preferimos fazer um rodeio, passando por Sabará.

A importância da rota que efetuamos – Ouro Preto a Diamantina –, cuja experiência está capitulada neste livro, consistiu num levantamento que revelou como e porque apareceram as vilas a partir do século 17, organizadas em torno das regiões auríferas em que as trilhas e estradas por onde passamos deixaram rastros de uma história cheia de valores e matéria-prima de interesse para o turismo.

Achei por bem, então, como coordenador do projeto, investir numa pesquisa sobre a rota alternativa que Spix e Martius mencionam ter conhecido como sendo “a melhor opção quando se sai de Ouro Preto para Tejuco”. Consultei o Evandro Sathler, da FUNIVALE (Universidade Livre, Experimental e Comunitária do Vale do Jequitinhonha), que também entendeu a importância dessa iniciativa para “fechar” nosso projeto, como em verdade era mencionado entre os objetivos do projeto original, quando ali se refere ao caminho pela Serra do Caraça.

Juntei-me a outros “expedicionários” e colaboradores, sendo eles: Ted (Ronildo Machado), nosso turismólogo, e Marquinhos (Marcos Vinícius Gonçalves Ferreira de Andrade), geógrafo que trabalha no IGA (Instituto de Geociência Aplicada de Minas Gerais) e que vem contribuindo com o levantamento de trilhas e mapeamento de nossa rota, desde o princípio de nossos planos. Em setembro, partimos, depois da Expedição, no jipe de apoio da Tropa Serrana, contando, ainda, com o patrocínio do SENAC-MG, com o objetivo de conferir o rumo mencionado da vertente Ouro Preto, Mariana, Catas Altas e Barão de Cocais.

De Barão de Cocais para Diamantina, já fizemos o levantamento detalhado em nossos relatórios, por termos passado por lá durante nossa Expedição. Gostaria de acrescentar o fato de conferirmos este novo trecho, não só por ter sido mencionado por Spix e Martius, mas pela consideração controversa que divide algumas correntes, quanto ao que é ou não a chamada Estrada Real. Alguns fundamentam que Estrada Real seria a rota autorizada pela Colônia, por onde transitavam os valores (ouro, víveres etc.) que estariam sujeitos à ação fiscal da Coroa. Outros entendem que Estrada Real são os caminhos reminescentes dos séculos 17, 18 e 19, e, nesse caso, a palavra “real”  estaria referenciando real como de fato e não como realeza. A história, contudo, registra o trecho Rio de Janeiro/Ouro Preto como sendo a Estrada Real construída a pedido de D. João V, cuja obra, terminada em 1725, visava a diminuir a distância do litoral até Ouro Preto. Havendo, como ocorre no momento, um esforço conjunto em nosso Estado, para que transformemos a Estrada Real em produto turístico,[1] nossa intenção, juntamente com o SENAC-MG, Governo do Estado, prefeituras envolvidas, iniciativa privada, ONGs e tantos agentes autônomos, pareceu-nos enriquecedora, na inclusão desse caminho como uma ação complementar ao projeto, o que chamaremos Expedição Spix & Martius - 1999/II.

Belo Horizonte – 22 de setembro de 1999
Eram oito horas da manhã. Véspera da primavera. A chuva era anunciada pelo serviço meteorológico. As águas caindo seriam um presente à natureza, pois a flora vinha sofrendo um castigo da estiagem e alguns focos de incêndio seriam apagados. Inclusive no Caraça, onde tínhamos notícia de uma queimada feia! Mas 'estávamos na chuva era para molhar'!

Determinados a enriquecer ainda mais o nosso projeto, seguimos então para Ouro Preto, de onde demos início ao nosso trabalho. Próxima meta: Mariana, Catas Altas, Barão de Cocais... Saindo da Praça Tiradentes, encontramos uma tropa de burros. Paramos para fotografar. Nesse momento, Ted me apontou uma casa, em uma serra à frente, dizendo ter sido construída por um arquiteto que era o pai de Santos Dumont.

Observando, pude lembrar algumas antigas estações de trem da região de Petrópolis, Juiz de Fora, Barbacena... Uma arquitetura meio inglesa. Havia nítido contraste com o estilo barroco/colonial de todos os casarios daquele Patrimônio Cultural da Humanidade.

Mas os burrinhos de carga pareciam perfeitamente ajustados ao cenário, por sua forte marca do passado, e que tão bem compõe com a cultura tropeira. É de nosso conhecimento que nossa história, e até nossa arte, muito deve às tropas que, ali, de maneira heróica, artesanal e vigorosa, competiam com os meios de transporte atuais. Nesse momento, comecei a me divertir com o confronto dos tempos, tão vivo nesses caminhos que estávamos trilhando.

Essas riquezas de costumes e cultura de um povo tão amável e hospitaleiro são diferenciais que reservam ao nosso Estado uma perspectiva de sucesso no horizonte do turismo.

Logo chegamos a Mariana. Havia um circo montado no trevo da cidade, a 07 km do nosso ponto de partida. Um hipopótamo, um elefante, o cheiro dos animais, o colorido da lona, confesso que me fizeram voltar à infância, e minha vontade era ver o show. Mas nosso propósito era assistir a outro espetáculo. E ele já tinha começado. Já havíamos passado no bairro Taquarão, onde fomos brindados com a vista de uma igrejinha chamada Senhor Bom Jesus das Flores. A primavera que iniciava já tinha seu templo! A capela é linda, barroca, e merece uma visita. Vale considerar a possibilidade de propor um produto turístico de grau leve de exigência, que poderia ser um hike (caminhada de retorno no mesmo dia). Leve, porque a caminhada que empreendemos durante a Expedição teve uma média de deslocamento de 25 km por dia. Com 10 km indo até Mariana, esse produto poderá atender a pessoas de pouca prática em caminhadas, com variados interesses, como o segmento Ecopedagógico, que teria um vasto aprendizado no qual mergulhar. E, por falar em mergulho ...

No caminho, passamos pela Mina da Passagem, aberta à visitação. Nessa mina existe um atrativo pitoresco, que é um curso de mergulho em um lago, em suas galerias. Quem diria? Cave diving (mergulho em lagos situados no interior de cavernas e/ou grutas)! Do lado de fora, encontramos infra-estrutura para lanche e bares que oferecem, inclusive, refeição.

Mariana. Fomos até a praça Tancredo Neves. Ali, encontram-se a Prefeitura e o Ginásio Esportivo, alvo de questionamentos quando edificado, pois seu estilo moderno não condizia com a aspiração da população. A Prefeitura também é de linhas modernas. Contudo, naquela praça, pode-se observar o prédio da estação ferroviária, que é uma graça. Sua fachada gótica está muito bem preservada. Mariana tem inúmeros atrativos que justificam uma ida até lá. A história registra a instalação do primeiro bispado em Minas, com a vinda do Bispo Frei Manoel de Cruz que ali chegou, montando um belo corcel especialmente arreado, de uma longa cavalgada do Maranhão para as Gerais, demonstrando todo um poder que caracterizava a Igreja Católica nos tempos coloniais. São inúmeros os episódios e monumentos ali constatáveis, que justificam uma conferida, em viagem de fácil acesso. Até uma passagem de Dom Pedro I que, com o fundador da Escola de Minas, Henrique Gorceix, empreendida por esta rota, indo até Sabará, via Caraça, é fato pitoresco a considerar.

Pois bem, da praça, tomamos à esquerda e atravessamos a ponte. No semáforo, logo à frente, convertemos novamente à esquerda e seguimos rumo a Catas Altas.

05 km à frente, há um trevo em que o asfalto segue a indicação SAMI-TRI/SAMARCO. Optamos por seguir o rumo de Bento Rodrigues, referenciado à época pelo historiador Saint-Hilaire como “Bento Ruiz”, e que assim figura nos mapas antigos.

Daí para frente, nosso caminho passou a ser em solo de terra.[2] Para nossa tristeza, este terreno pertencente à empresa CAFE que, me parece, se volta a florestamentos de eucalipto. Esta monocultura cria uma paisagem monótona e sem vida. Nesse momento me deu vontade de, com certa liberdade poética, inventar uma palavra que traduzisse o que sentia. A palavra é APOCALIPTO. É isso. O fim. Nessa cultura, ligada à ação minerária, percebem-se muitos impactos ambientais. Nos primeiros anos, por exemplo, rende alguns empregos no plantio. Depois de cinco anos, a redução de mão-de-obra é enorme, pois a moto-serra substitui o homem, gerando desemprego. Enquanto isso a terra sofre, os lençóis freáticos são sugados e a fauna some. O minério explorado cria fendas nas serras e... “dá-lhe” carros nas cidades e tantos produtos que, em nome do conforto, promovem o comprometimento ambiental. Bem, mas antes que acabem com tudo, vamos apostar todos os cacifes no turismo, que poderá ser para Minas uma fonte geradora de empregos, sedimentando a mão-de-obra nos seus nichos de origem. Gerando recursos e preservando o meio ambiente, estamos certos de que o Ecoturismo poderá reabilitar nosso futuro para uma maior sustentabilidade.

Seguindo viagem, nosso próximo local, que hoje é conhecido como Santa Rita Durão, foi referenciado por Spix e Martius como "Inficcionado". Esse percurso é bastante vocacionado para caminhadas, cavalgadas, bikes e automotores, pois todo o caminho é feito no dorso de estrada de terra muito bem cascalhada e compactada. É uma rota superposta à estrada antiga, tendo seu antigo percurso sido traçado pelas tropas do passado. Por isso, desloca-se naturalmente em curvas de nível, como as dos tropeiros e, dessa forma, é possível nela transitar sem grandes desgastes de subidas e descidas.

Vimos nesse caminho um belíssimo e antigo casarão da Fazenda Gualaxo. O estado de abandono e decadência que se instala nesse casarão é de 'dar dó'! Ali seria apropriada a criação de um pouso rural. Ficamos a observar aquele casarão e o seu pátio, onde dividiam a pastagem um burro e duas seriemas. 

À frente, numa ponte de madeira, passamos sobre o Ribeirão Gualaxo. Mais um fato preocupante: o assoreamento provocado pela ação minerária. Essa área faz parte da bacia do Rio Piracicaba.

Faltavam 02 km para alcançarmos Bento Rodrigues. Já se avistava a Serra do Caraça. São 20 km em estrada de terra desde o trevo SAMITRI/SAMARCO, onde abandonamos o asfalto.

Um novo córrego. Constatamos, em um dos mapas que o Marquinhos consultava,[3] que o córrego que avistávamos era conhecido por Santarém. Nos baseávamos ainda no mapa do primeiro levantamento cartográfico de Minas Gerais, de 1948, feito pelo Instituto Geográfico.

Dessa vila partimos, mantendo-nos sempre à esquerda. Observaram-se poucas casas e pouca infra-estrutura para o turista. Ali há um comércio, constituindo algum apoio. Pertence ainda à Mariana. Não vimos nenhum posto de gasolina. Há uma velha capela de São Bento, parecendo-nos ser do primeiro período do Barroco mineiro. Disseram-nos que na parte de cima da vila tem outra igreja, a de Santa Mercês. Soubemos, também, que ali existe uma mina de ouro desativada. Informaram-nos de que na propriedade da empresa mineradora SAMITRI há uma capela feita por escravos, mas que a visitação é controlada. Quero crer que um dia perceberão que o turismo é a mina para se explorar, priorizando-o em detrimento das ações minerárias. E que abram a visita a esse acervo de possível importância cultural, que é a tal capela. Até lá, tenhamos fé e rezemos para que isso ocorra antes que, em nome do “progresso”, comprometamos o meio ambiente e deixemos algumas “relíquias” ao risco do abandono e da indiferença.

Saindo do vilarejo, fomos observados pelas copas de duas enormes palmeiras imperiais que pareciam tocar as nuvens! Sua altura atesta sua longa idade, e os muros de pedra que as ladeiam demonstram que, pela possível presença do ouro, valeu a pena investir mão-de-obra para marcar divisas nessa região. A gente percebe que o ciclo do ouro deixou marcas que fazem de nossos caminhos uma vitrine cultural. Há um conjunto de valores que mais parece o corredor de um museu, um grande museu vivo!

Para refrescar, logo na saída de Bento Rodrigues, há uma bica d'água. Saciamos a sede e observamos uma lavadeira que 'batia roupa', às margens de um córrego. Experimentei observá-la sob a ótica de um morador de cidade grande, que, subjugado ao domínio das máquinas lavadoras de roupa, via uma cena que constituía a realidade de outra era. Bem, estávamos a 898 metros de altitude, “pé no chão”, lavadeira ali presente, e nossa viagem seguia. À frente, duas vertentes. Optamos pela da direita, por ser caminho antigo. Seguimos para Santa Rita Durão,  atravessando a Serra da Cruz das Almas.

A 07 km de Bento Rodrigues, uma primeira dúvida. À esquerda tem uma rede elétrica, cuja rota desprezamos. Mantivemo-nos à direita. Logo à frente, deparamo-nos com uma encruzilhada de três vias e seguimos na opção da direita, rumo a Santa Rita Durão. No princípio do século 19, o historiador Saint-Hilaire já alertava sobre os riscos de impacto e erosões ambientais da exploração do ouro nesse local. Era o final da exploração do ouro de aluvião, colhido na barranqueira dos cursos d'água.

No lugarejo conhecido no passado como Inficcionado, encontramos a antiga igreja de Nossa Senhora do Rosário. Restaurada pelo IEPHA-MG (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais), encontra-se em bom estado de conservação e merece ser visitada. Na mesma vila, o IEPHA-MG está restaurando a igreja de Nazaré.

Um fato simpático ocorrido em nossa passagem se deu quando pedimos uma informação a um morador local que, não sabendo nos dar, disse-nos, arrematando a conversa: “Isto eu não sei não. Mas o cafezinho na minha casa eu posso garantir que é bom. Vamos até lá?”. Essa é a gentileza que caracteriza esse povo simples e hospitaleiro de nosso interior.

Saímos, margeando o Rio Piracicaba (no dialeto indígena, 'onde o peixe acaba'. 'Será que piracema significa onde ‘o peixe começa’?', comenta o Ted.)

10 km à frente de Santa Rita, deparamo-nos com aquele que é considerado o maior paredão de quartzito do mundo. São 1.000 metros de parede, registrando uma altura que chega a alcançar 2.070 m. É o ponto mais alto da Serra do Espinhaço. Trata-se do Caraça, mais alto que o Pico do Itambé. Em seu perfil superior, temos o Pico do Sol. Próximo a esse local, os escaladores radicais estabeleceram uma trilha que demanda três dias até o topo. É o Pico do Baiano, onde há uma via de escalada. O pessoal chega a dormir pendurado nos “grampos” que ali se encontram instalados. Há também a Pedra do Inficcionado. Na serra do Parque Natural do Caraça, existe uma gruta que é considerada a maior em quartzito do mundo. Tudo isso pode ser observado de frente, em um local chamado Chapada do Canga. A vegetação característica daquele solo é toda em  'miniatura', como se fossem 'bonsais'. A “canela-de-ema”, por exemplo, não ultrapassa 06 cm de altura. O piso é feito de uma rocha resistente e compactada. É uma formação geológica curiosa. O nosso geógrafo comenta que a existência desse solo é tão antiga, mas tão antiga, que já passou por variações climáticas de todo tipo, encontrando-se hoje de forma bastante acomodada. Por isso, o risco de terremotos e erosões é mínimo. Mais uma segurança ao turista nessas “bandas”.

À época, ocorria no Caraça a migração dos pássaros “Andorinhões”. O segmento dos chamados observadores de pássaros (bird watchers) verá grande futuro nesse mercado. E olha que é muito recurso que corre no setor. Humberto Martins Marques, o biólogo da Expedição Spix & Martius - 1999, junto com o Beto (Carlos Alberto),  ornitólogo do grupo, identificaram por volta de 150 espécies de pássaros durante a viagem até Diamantina. Minas Gerais tem mais espécies de pássaros do que todos os EUA, que são grandes emissores de turistas interessados por essa área. Bem, falando em área, identifiquei nesse local uma grande possibilidade para a prática de campismo. Há muita água de boa qualidade, e 01 km à frente tem até queda d'água, própria para um bom banho. Esse local me traz saudosa recordação de uma pessoa que conheci, e que era proprietário de uma gleba por ali. Era grande o seu empenho e esperança em organizar na região o Ecoturismo, com qualidade elevada. Seu nome, Raul Neuenschwander. Ele foi vítima de ataque de um enxame de abelhas. Não resistindo, veio a morrer.[4] Fica um alerta para que tenhamos sempre recursos de Primeiros Socorros, como anti-histamínicos, antialérgicos, soros etc., e estejamos sempre com guia e acompanhante habilitados. Esse é um pressuposto básico para o Ecoturismo.

Nesse local, nota-se a tendência de se formarem lagos com o acúmulo das águas de chuva, que não penetram no solo. Também a dificuldade das raízes em penetrarem a terra acaba formando uma floração própria, que à sua época, pelo que o Raul dizia, torna-se um jardim de flores de rara beleza.

Seguindo, fomos para Morro d'Água Quente, 04 km à frente. Saint-Hilaire cita a água quente ali existente. Fomos conferir. Há apenas um “olho d'água” que jorra água morna do solo. Estão instalando um balneário no Córrego do Mosquito. É um lugar antigo em que, como as demais vilas das Gerais, a afirmação econômica e de fé da população se traduz nas construções de suas matrizes. A Capela do Bonfim é prova disso, pois se encontra em bom estado de conservação. 

As cachoeiras, os becos estreitos, a vila com antigos muros de pedra revelam, nesse destino, um enorme potencial para pousos rurais e pousadas. Poderemos nos aventurar e curtir um lazer com simplicidade, certamente regenerador e repousante. Contudo, será preciso planejamento e mobilização dos habitantes locais para que se preparem para a demanda turística. Acho tudo isso muito possível, porque essa comunidade pertence ao jovem município de Catas Altas (emancipado em 21/12/1995), para onde nos deslocamos, então, e tivemos a grata satisfação de testemunhar os efeitos benéficos de uma administração municipal totalmente voltada para o desenvolvimento sustentável da região, e com olhos direcionados ao turismo. “P'ra começo de conversa”, surpreendemo-nos com a colocação estratégica de um latão de lixo a cada 40 metros, em todas as ruas da cidade. Praças limpas e pintadas, e outras recém construídas, demonstram que a aplicação de recursos em Catas Altas é bem dirigida. Até mesmo porque o faturamento daquele município vem aumentando significativamente. A fonte que mais vem se destacando naquela economia é o turismo. É o único lugar nessa Estrada Real onde constatei haver uma pousada de propriedade da Prefeitura. É um casarão antigo e com preço bem acessível. Existem duas outras pousadas e alguns locais para se comer, também a preços bem razoáveis. Dessa maneira, leva-se o turismo ao alcance de todos, com o interesse daquela comunidade e do poder público. Considerando-se as várias possibilidades de praticar o turismo naquela região, vamos nos empenhar para contribuir com o trabalho que ali já é realizado. O SENAC-MG está interessado em ajudar a organizar esse corredor turístico e, tenho fé, outros agentes irão nos apoiar e dar suporte a um plano integrado para toda a Estrada Real, que possa ser exemplar para o resto do Estado. O SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e a Unicentro Newton Paiva já se encontram trabalhando por lá. Também a AMDA (Associação Mineira de Desenvolvimento Ambiental) está atuando na recuperação de áreas assoreadas dos rios. Poderemos estimular a criação de operadores de Ecoturismo, capacitar guias, diagnosticar e indicar produtos (eco)turísticos. É um desafio, sim. Mas não há dúvida de que podemos e devemos caminhar juntos. Explorando o turismo, não o turista, e ligando não só os municípios, mas os órgãos, entidades e todos que possam engajar-se num projeto alinhado pelos mesmos ideais.

Há, em Catas Altas, uma produção limitada de vinho de uva (branco e tinto, ambos secos, suaves ou doces) e de vinho de jabuticaba (com as mesmas variações dos de uva). Esse, eu provei e comprei – R$ 4,00 (quatro reais) o litro. Delícia! Há também a fabricação artesanal de aguardente de jabuticaba – R$ 2,00 (dois reais) o litro. A restrita produção do vinho, realizada pelo Sr. Nereu, tem sua safra disponível em maio e abril. Só nessa época conseguimos adquirir uma ou outra garrafa do vinho de uva.

Um evento que vem se destacando é a Cavalgada de Catas Altas. Em junho, 4.000 pessoas prestigiam a festa. De Belo Horizonte, são 118 km até lá. De Ouro Preto, 51 km; 41 km, de Mariana; 13 km, de Santa Bárbara; de Itabira, 23 km; e de João Monlevade, 81 km. A distância até o Caraça é de 38 km.

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição é belíssima, com obras de Aleijadinho. É rodeada por uma área com calçamento antigo que se transforma em ruas e nos levam ao rico passado ali vivido. Seu centro histórico foi tombado em 1999. Parabéns, também, ao IEPHA, pela ajuda! 

T
enho notícia de que existe ali uma trilha, “Caminho do Oratório do Funil”, que outrora os cavaleiros e caminhantes usavam para ir ao Colégio do Caraça. Muitos que lá trabalhavam, moravam em Catas Altas. É uma trilha de aproximadamente 20 km. Disseram-nos que a trilha está tão comprometida que está difícil até para cavalo passar. Contudo, encontramos um morador da cidade que se dispôs a nos acompanhar quando quiséssemos. Seu pai trabalhou muitos anos lá e, por mais ou menos seis anos, utilizou essa trilha. Naquele rumo, a gente teria que passar por alguns locais, chamados Tanque Preto, Quebra Ossos, Engenho etc. Neles, para se passar a pé ou a cavalo, é preciso pedir licença à CENIBRA e à Florestas Rio Doce (Cia. Vale do Rio Doce). Até quando o poder público vai se isentar de interferir em ações daqueles que se utilizam de “certos expedientes” para proteger “seu” patrimônio? Aqueles que “espertamente” manobram os instrumentos legais para consagrar “escusos” interesses? Aquela passagem é atestada no próprio relato dos historiadores, e também em testemunho de usuários, como o do Sr. Custódio. É explícito o direito constitucional da posse pública de passagem.

Foram 24 km de trilhas até Barão de Cocais, passando por Santa Bárbara. Nossa meta era estabelecer em Barão de Cocais a encruzilhada deste caminho com aquele que havíamos trilhado via Glaura/Acuruí/Rio Acima/Honório Bicalho/Raposos/Sabará/ Caeté/Barão de Cocais e daí para Diamantina, tornando o roteiro comum.

Uma vez mais, soubemos que o caminho que desprezamos, passando pelo Caraça, estava intransponível. Permanecemos na rota também traçada pelos caminhantes do passado, e que hoje foi superposta por uma estrada compactada em terra, na qual transitam carros e caminhonetes. Fomos até a estrada asfaltada Mariana/Santa Bárbara (MG-129). Andamos no asfalto à esquerda por mais ou menos 04 km e tomamos novamente a esquerda, passando por uma tronqueira, abandonando o asfalto e seguindo rumo à ponte do Junqueiro. Passamos pelo local identificado como Cubas,[5] por onde entramos, abandonando o asfalto e seguindo por estradinha de terra. Estávamos rente à monumental pedreira do Caraça, considerada por muitos o começo do Espinhaço. O Parque Natural do Caraça é uma Reserva Particular do Patrimônio Nacional (RPPN) e pertence ao município de Santa Bárbara. Sua formação geológica é de quartzito. 02 km à frente, passamos por um mata-burro, à esquerda, indo até uma estrada de trem de ferro. Seguimos à direita, paralelamente aos trilhos da Estrada de Ferro Vitória/Minas, por cerca de 02 km, sempre com a atenção voltada para uma casa de fazenda à direita, que seria o ponto de referência para abandonarmos a paralela da ferrovia. Há, ali, uma passagem, com porteira - deve-se prestar muita atenção para não passar direto, caso se esteja em veículo rápido (bike, carro, moto),  já que andar ao lado dos trilhos provoca certa sensação de “embarque”, e, naquela estradinha contígüa aos trilhos, a gente acaba “viajando”, correndo o risco de passar o ponto de conversão!

Então, ao se passar por tal porteira à direita, encontra-se um túnel sob a ferrovia, e deve-se seguir do outro lado, rumo às fazendas Ouro Verde e Córrego da Lage. 03 km à frente, tem-se uma grata surpresa: vê-se um muro enorme, feito de pedras sobre pedras, com mais ou menos 05 metros de altura e uns 60 metros de comprimento. Tem uma passagem no centro, que é um portal, estilo arco romano, e que nos permite perceber a sua espessura de mais ou menos 02 metros. O portal arqueado, todo apoiado na compressão de pedras gigantescas distribuídas em leque, é de uma engenharia perfeita, na qual se percebe um investimento em tecnologia da época e uma mão-de-obra faraônica (constituída por escravos), utilizada na sua construção. No passado, era um dique elevado de água, que a linguagem popular denominou de “bicame”. É uma alusão ao termo be coming, do inglês, que assim se adaptou na região. Em Nova Lima, existe um “bicame”, na entrada da cidade, que levava água até à antiga St. John Del Rey Mining Co., hoje Morro Velho. Só que o de lá é sustentado em vigas de madeira. Esse que vimos, em pedra, era impressionante. Numa pedra, esculpido em baixo relevo, há o registro da data – 1792. Através de uma escada de pedras que se salienta na parede, alcançamos o topo, de onde se observa o leito do antigo duto de água, na cabeceira da obra. É estranho tudo isso sem que haja uma continuidade da função nas duas extremidades, já demolidas e desaparecidas. Não se percebe de onde nem para onde ia a água. Tal monumento merece ser tombado como Patrimônio Histórico, merece ter sua história pesquisada e informada em placa indicativa a ser instalada no local.[6] É, sem dúvida alguma, um dos exóticos atrativos do percurso. “Valeu!”

Numa extremidade do muro, tem-se uma estrada que, à esquerda, leva ao Caraça, de encontro àquela trilha que desprezamos: Catas Altas/Caraça etc., em que passaríamos pela Fazenda Quebra Osso, Tanque Preto, Brumal.

Contudo, seguimos pela lateral do “bicame”, também por antiga rota em direção a Cubas ou Pedreira. Havíamos deslocado 04 km. Entrando à esquerda (antes do asfalto), rumando para Cubas, procuramos uma estradinha que seguia em direção ao entroncamento do Sítio do Tião Crispim ou então de Antônio Durica,  para depois chegarmos à Fazenda Riacho das Pedras, de Geraldo Azevedo, e à Fazenda da Pacheca, localizada na estrada que beira o Rio Santo Antônio. Tomando à direita, chega-se em Santa Bárbara. Se convertermos para a esquerda, chega-se a Barão de Cocais. Porém, ingressamos em Santa Bárbara, e ficamos de “queixo caído” com as obras de restauração das igrejas locais executadas pela Oficina de Restauro, contratada pelo IPHAN. São dignas do Mestre Athaíde. Junto à matriz de Santo Antônio (de 1713), encontra-se um prédio, também antigo, utilizado como cadeia pública. Os presos, nas janelas antigas e gradeadas, puxam conversa com quem passa na rua. Com relativa proximidade, cortejam as moças e pedem a quem passa “uns trocados para comprar cigarros”. É estranho, de repente, perceber esta realidade de reclusão tão próxima.[7] Santa Bárbara tem boa estrutura para receber turistas, com bares e pousadas. Há uma pequena, porém confortável, rede hoteleira na cidade. É rica em grutas, trilhas esportivas, cursos d'água, picos e montanhas. Existem guias, como o Dalmo Ornelas Filho - (31) 832-1294 - e operadores como o Albano. Ali mora a bióloga Vanessa, que conheci quando juntos fizemos o curso de capacitação em Ecoturismo, ministrado pelo BIOMA, no Parque Estadual do Rio Doce. Outra figura muito importante, que é altamente qualificada para acompanhar o visitante na região, é o mateiro João Júlio Júnior. Ele é muito conhecido por lá. Ótimo guia, também nas incursões ao Caraça. Conhece tudo!

Bem, fizemos rápida visita à estação de trens; lamentamos a interrupção desse transporte no país. Contei aos parceiros sobre um projeto que coordenei, quando presidente da AMO-TE (Associação Mineira de Ecoturismo), e encaminhei, em 1996, ao deputado do Partido Verde na Assembléia, e que contou com pesquisa de Raul Neuenschwander, apoio de Maurício Luciano (do Instituto Estadual de Florestas - IEF) e Fabiano Lopes de Paula (IEPHA). Chama-se “Trem Bão”. Nele, sugeríamos a criação de um circuito de trem BH/Sabará/Caeté/Barão de Cocais/Santa Bárbara/Catas Altas/Ouro Preto/Itabirito/Rio Acima/Raposos/Sabará/BH. Tratava-se de um pequeno 'Circuito do Ouro', de três dias. Essa é uma outra história...[8]

Voltamos, subindo o Rio Santo Antônio, até a rodovia MG-436, pegando o asfalto até o bairro Capim Cheiroso e por aí adentramos em Barão de  Cocais. Foram 04 km de percurso desde Santa Bárbara. Já eram 22 horas, e chovia muito. A primavera despertaria regada, e em flores.


Saímos de Barão para BH. Foram 105 km, pela rodovia BR-262. Completamos o objetivo inicial de conferir esse circuito, mencionado por Spix e Martius, na obra Viagem pelo Brasil. Nesse circuito, poderemos ir a cavalo ou a pé, cumprindo-o em três dias; de bicicleta, em dois dias, e em veículos motorizados, em um dia.

Fechamos, assim, essa alternativa de rota para Diamantina, que, conforme as diversas interpretações de historiadores, eram as trilhas que compunham a malha viária do Ciclo do Ouro.

Estrada Real, estrada real... é um mergulho no passado emergindo para um futuro que, por inúmeras razões, torna-se o horizonte do presente.

Texto de Tullio Marques - graduado em Direito, consultor do Projeto de Ecoturismo do SENAC-MG, especializado em Turismo Eqüestre, proprietário da Tropa Serrana, cineasta e coordenador-geral da Expedição Spix & Martius - 1999.

[1] A Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais dispõe (Lei 13.173, de 20 de janeiro de 1999) sobre o Programa de Incentivo ao Desenvolvimento do Potencial Turístico da Estrada Real. Art. 1º - Parágrafo único: Para efeito desta Lei, consideram-se Estrada Real os caminhos e suas variantes construídos nos séculos 17, 18 e 19, no Território do Estado.Com essa visão, vamos embarcar.

[2] O asfalto não demora a cobrir essa estrada. Já está decidido e há recursos para tal. As empresas de ônibus (especialmente para excursões de turismo) serão as primeiras beneficiadas e, dessa forma, o fluxo turístico deve aumentar. Mas o prazer de caminhar, cavalgar nos caminhos à moda antiga é que ficará frustrado com a nova pavimentação. Se, pelo menos, utilizassem pedras para calçar o percurso, seria ecologicamente mais interessante. Primeiro, por sua maior permeabilidade; segundo, estariam gerando mais empregos, pois sua construção é bem artesanal. Por último, estaríamos mantendo uma aparência antiga, como merece a Estrada Real. No que tange à dificuldade, no calçamento, de desenvolvermos grandes velocidades nos veículos, seria mais um benefício, pois a prudência economizaria acidentes.

[3] Mapa das Comarcas de 1778 - Vila Rica - acervo do Exército e cópia do IGA. Conferir tal mapa, que se encontra no Apêndice deste livro (Nota das Organizadoras).


[4] Raul, todos os que acompanharam a sua trajetória poderão considerar que as abelhas confundiram-no com flor ou algo doce. Assim você, com sua campanha pela ecologia local, nos parecia. Seus ideais não podem se extinguir. Relembro a empolgação com que me relatava aquele lugar. Aqui, agora, entendo porque uma pessoa tão sensível, ideológica e de visão como você se preocupava tanto com este ecossistema. Chego a perceber sua presença na Chapada do Canga!

[5] Cubas: medida antiga para avaliação do volume de minério bateiado.

 

[6] O “bicame”, o muro de pedras, o portal romano: neste momento vale lembrar que na Roma antiga utilizaram “bicames”, iniciando os primeiros projetos de saneamento de que se tem notícia. Assim, conseguiram criar uma influente cidade. Agora, por volta de 2000 anos depois, será que as questões de saneamento estão recebendo os devidos cuidados? Uma coisa devemos considerar: o ecoturista é muito exigente, e o sucesso de um destino turístico depende fundamentalmente da qualidade oferecida em saneamento básico e preservação das água, flora e fauna.

[7] Dois dias após nossa passagem, e este texto redigido, li nos jornais que houvera uma revolta naquele presídio. Os presos incendiaram-no, tendo morrido um deles, e outro ficou hospitalizado e gravemente ferido. Estranho imaginar que estivemos tão próximos e não notamos a revolta iminente.

[8] Na mesma ocasião, em 1996, ainda com o apoio do Maurício e do Fabiano, também à frente da AMO-TE e da Tropa Serrana (empresa de Turismo Eqüestre, que já percorria trechos da Estrada Real), protocolamos, em várias instâncias, incluindo Turminas (Empresa Mineira de Turismo) e SELT (Secretaria Estadual do Esporte, Lazer e Turismo), a proposta de que a Estrada Real fosse protegida por lei enquanto rota de Ecoturismo. Hoje, é consagrada como tal, na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, desde 20 janeiro deste ano (Lei 13.173).

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